O ESPIÃO
PORTUÁRIO QUE CHIAVA DEMAIS...
Na época em que meu pai era vivo, eu havia jogado futebol nas equipes juvenis da Portuguesa Santista, do Santos Futebol Clube, e por ultimo no Jabaquara Atlético Clube de Santos, onde eu tive que parar de trabalhar para ajudar no sustento de minha família, pois sequer eu tinha tempo para treinar. No emprego eu tinha que fazer desde limpeza de fezes de cachorro, varrer toda a mercearia, carregar e descarregar veículos, assim como fazer entregas e uma vez ou outra, eu comia dentro do deposito de mercadorias, algumas meninas que me davam mole. Para mim era muito pesado ter um emprego como aquele, pois a sacaria mais leve era de vinte quilos e a mais pesada chegava a oitenta quilos. Logo em meu primeiro dia de emprego, deram-me umas sacarias para descarregar de cima de um caminhão. Quando eu fui levar um saco de cebola para colocá-lo para vender sortido, ao passar al lado da dona da mercearia, eu bati com o saco de cebola na cabeça da mulher que me xingou de aloprado e cego. Na mercearia eu tirava o dinheiro para ajudar no sustento da minha casa. Por causa desse emprego eu também tive que parar de estudar, porque eu largava do serviço ás sete horas da noite. Apenas nos finais de semana e em feriados é que eu ia para Vicente de Carvalho para ficar ao lado de minha mãe e de meus irmãos. Já nos outros dias eu dormia na casa de minha avó ou na casa de minha tia EMILIA que ficava aos fundos da casa de meus avós. Eu não sei porque carga dágua os meus pagamentos eram entregues sempre ao meu avô que o repassava totalmente a minha mãe, eu não ficava com nenhum tostão, nem para comprar uma bala. Nesse emprego fiquei trabalhando por cerca de oito meses. Por intenções de dois de meus tios por parte de meu pai, onde um era encarregado de motoreiros na companhia docas de Santos, e o outro o dono de um posto de combustíveis e que abastecia os veículos e as lanchas da marinha de guerra do Brasil, eu fiz uma inscrição para trabalhar no porto.
Meu Tio Zé Roberto foi o propulsor de meu primeiro e grande emprego com registro em carteira profissional, porque os outros empregos só serviam de bicos. Sepois de ter feito a minha ficha de pedido de emprego ele pediu ao seu irmão que tinha um pequeno posto de combustíveis, nas proximidades da Avenida Doutor Conselheiro Nébias e um outro posto no cais da mortona em Santos, para me dar uma outra força para conseguir ser admitido e obter esse emprego no porto. Antes de eu ser empregado na companhia docas de Santos o meu tio Coelho (Roberto), foi quem fez o requerimento para que eu fosse admitido como empregado do porto. Mas quem me deu a maior força mesmo foi o irmão de meu tio Roberto, o tio Luiz Carlos. Ele foi quem me levou para ser apresentado ao capitão dos portos, na própria capitania dos portos de Santos. O mais interessante de tudo é que no dia em que eu fui até a capitania dos portos com ele fatos interessantes também aconteceram. Na primeira vez em que lá estive, enquanto nós aguardávamos para ser atendido pelo oficial dos portos, eu vi e ouvi em duas cenas e imagens ficaram bem gravadas em minhas memórias como se estivessem acontecendo nos dias de hoje.
Parece-me que isso tudo faz parte de um imã que nos atrai para num futuro próximo como agora, serem lembradas e fielmente valorizadas.
Eu fico
observando a beleza daquela sala de espera que tem ao céu centro um belíssimo
lustre de cristal, só que menor do que nos tínhamos em casa. Uns dez minutos
depois, quando eu já tinha demonstrado
curiosidade em apreciar todo o prédio, sai de uma das salas um oficial
da marinha e dois senhores de terno negro.
Eles
conversam como que se ninguém estivesse por perto para ouvir a sua conversa,
O
Oficial,
___O
cidadão de Itatinga vai responder á um IPM. (mais tarde eu vim á descobrir o
que seria IPM, inquérito policial militar) Eu te garanto que ele jamais se
esquecerá disso!
A
complementação veio de uma das pessoas que trajava terno,
___Com
toda a certeza o navio estará aguardando por ele na barra de Santos um AI-5
está de muito bom tamanho.
Assim que
meu tio chegou fomos atendidos na sala pelo Capitão dos portos chamado Jose
Luiz. Por ironia do destino esse é o mesmo nome da pessoa que foi o meu ultimo
chefe antes de minha aposentadoria.
O capitão
dos portos (na verdade ele era comandante da marinha de guerra do Brasil),
tinha a insígnia que já devem vir do tempo dos impérios e dá-se essa patente ao
responsável pela capitania dos portos
Ele era
bem alto, magro, sem barbas mais usando bigode bem tosquiado, fumava um pequeno
mais belíssimo cachimbo envernizado e queimando um fino fumo perfumado. Seus
cabelos eram castanhos claros e mesclados com mechas brancas.
Apenas
meu tio falou com o capitão. Enquanto ele conversava com o militar explicando a
minha situação, eu ficava ouvindo a todos. Aquilo me parecia como alguém
pedindo esmolas para uma outra pessoa. Por ordens do capitão dos portos eu fui
colocado eu uma rural Willys e levado até a presença do inspetor geral da
companhia docas de Santos na época, o engenheiro Saulo Pires Vianna.
O próprio
capitão telefonou ao responsável pela cds de sua sala na capitania dos portos e
avisando que eu iria até lá. Pelo mesmo capitão dos portos eu fui incumbido de
levar uma pequena caixinha tendo dentro um pequeno prendedor de gravatas de
ouro simbolizado por uma pequena espada.
O veiculo
por ser um carro oficial, entrou na área da administração portuária sem parar.
Só o fazendo quando de nossa chegada ao estacionamento. O motorista do veiculo
era um sargento. Ele foi até um pequeno balcão e falou com um continuo que
atendia naquele momento. Uns dez minutos depois eu recebi as ordens para subir
uma longa escada de madeira, bater antes de entrar na única porta que tinha no final da escada.
Assim
feito, eu recebo de dentro da sala á autorização para que entrasse. Assim que
eu entrei entreguei um bilhete com um recado do capitão dos portos e junto com
o bilhete entreguei a pequena caixa do espadim.
O
inspetor geral da companhia docas de Santos, leu sossegadamente o bilhete,
pegou o espadim e colocou na gravata, em substituição ao antigo que ele
depositou em uma das gavetas de sua mesa. Depois ele deu vários telefonemas, e
atendeu á outros, sem trocar uma palavra comigo.
Volta e
meia ele olhava para mim e jogava algumas indiretas, tais como.
___O quê!
O cara tem cabelos compridos e usa barbas. Há! Ele é metido a playboy ou
filhinho de papai? Aqui nós só queremos pessoas que trabalhem e não pessoas
granfina.
Depois
dele falar muitas besteiras e eu ser obrigado á ouvi-las é que ele trocou as primeiras
palavras comigo,
___Qual é
o teu caso?
___Eu vim
falar com o senhor á mando do capitão dos portos!
___Falar
o quê?
___Que eu
preciso de um emprego!
___Assim
desse jeito? Aponta para a minha vestimenta e a minha aparência.
Ai então, com a cara de um grande idiota eu
foi obrigado a me justificar.
___Doutor
eu perdi o meu pai faz alguns meses e preciso trabalhar para ajudar no sustento
de minha família.
___E por
causa disso você não pode mudar um pouco a tua aparência?
___Posso
sim!
___Então
faça isso, por favor!
Dali eu
fui levado para um outro prédio onde eu fiz os exames de escritas, e mandou-me
aguardar para fazer os exames físicos e médicos, que seria em uma outra data.
A minha
entrada na companhia docas de santos em 1966, deveu-se ao capitão dos portos,
comandante Jose Luiz ser amigo pessoal de um de meus tios que tinha o posto de
gasolina.
Porem
antes que eu fosse admitido como empregado no porto muitos fatos estranhos
vieram a acontecer.
Eu fiz
todos os exames físicos e de laboratórios. Nos exames físicos eu passei com
folgas, mais nos exames de laboratorio, acusou verminose e nem por isso eu fui
perdoado, sendo eliminado da vaga. Eu soube mais tarde que eu fui reprovado nos
exames de laboratorio por ter respondido ao médico chefe do setor de medicina
do trabalho da companhia Docas de Santos, o doutor Miguel.
Após ser
reprovado nesse meu primeiro exame médico, por ter respondido á contra gosto
para o chefe do departamento médico da companhia docas, eu decepcionei-me.
Fiquei
muito decepcionado porque jamais tinha descoberta a palavra vingança e
conhecido pessoas de caráter vingativo. Por apenas uma resposta dada de forma
infeliz. Eu paguei a minha resposta com altos tributos, sendo em seguida
reprovado no exame de laboratórios (sangue e fezes), sendo por isso impedido
numa primeira vez de conseguir o meu bom emprego.
Dói muito
mais um ato vingativo do que uma resposta não esperada. Apesar de estar
aprendendo algumas lições, a vingança era mais uma que eu teria que aprender e
se acostumar com ela. Mais tarde outras e mais outras viriam me cercear.
O que
aconteceu naquele dia foi o seguinte:
O chefe
do departamento médico da companhia docas de Santos o Dr. Miguel foi me
entrevistar e me fez a seguinte
pergunta,
___Você tem um pequeno problema no sangue e
nas fezes.
Eu quis
dialogar com o medico,
___Pequeno
problema qual é ele doutor dá-me para explicar? Eu não bebo e não fumo! Não uso
drogas, que problema é esse?
___Eu não
sei! Quem tem que saber é você e não eu. Sou apenas o medico!
___Então,
Doutor! Melhor ainda se o senhor é medico já deve saber e não eu!
O medico
somente olhou para mim e firmemente disse-me,
___Já que
é assim, você está reprovado por ter vermes, anemias, ou sei lá o que. O mais
importante de tudo é que você está doente e não pode trabalhar aqui na empresa,
e ponto final!
___Doutor
se o senhor me disser qual é a minha doença, eu posso me tratar e tentar o
emprego novamente!
___Não
aqui! E eu não tenho nada á lhe explicar!Agora vá até a recepção e aguarde ser
chamado!
Quando
cheguei na recepção eu estava completamente abatido. Eu não queria demonstrar
ter ficado com raiva da forma com que eu fui tratado pelo médico. Esperei por
uns cinco ou dez minutos até ser chamado por um enfermeiro e recepcionista
daquele departamento médico Naquele tempo à mesma pessoa que tirava a pressão
arterial dos funcionários era o recepcionista chamado PALMEIRA.
Quando o
senhor Palmeira examinou a minha ficha medica, ficou pasmo e disse-me,
___Você
foi reprovado apenas por isso?
___Acho
que foi!
___Então
você é a primeira pessoa que ele reprova, pois até pessoa que tem sífilis ele
nunca reprovou, quanto mais o teu caso que é simples.
Eu já
tinha perdido as esperanças de trabalhar. Voltei até a presença de meus tios
para dizer-lhes o que tinha acontecido. O meu tio Luiz Carlos repassou ao capitão dos portos o que
aconteceu.
Através
de meu tio COELHO que exercia a função de operador chefe ou maquinista (por
operar equipamentos de transporte de grãos) e que me foi oferecido uma outra
grande chance na Companhia Docas de Santos.
Dois
meses depois eu fui prestar novos exames de laboratórios. Quando você vai á um
laboratorio de analise para fazer exames da tua ficha é retirada uma copia que
fica arquivada para sanar dissabores. Quando fui buscar o resultado o rapaz que
me atendeu, disse-me de antemão,
___Os
teus exames não mudaram nada. Eu não sei porque mandaram que fizesse um outro
exame. Esses resultados não reprovam ninguém.
Em uma
certa ocasião minha mãe conversando com um senhor que era conhecido de nossa
família ele a aconselhou que procurasse um terreiro espírita, e me levasse para
uma consulta com um orixá.
Na época
eu não era muito crédulo em religiões, qualquer que seja ela. Pois eu sempre
era induzido ou por parente ou por amigos para freqüentar muita das religiões
existentes. Por já ter freqüentado a religião evangélica e a católica,
principalmente pelo que aconteceu com meu pai, eu não levava credito na
religião espírita apesar de alguns de meus parentes serem dessa religião.
Sempre
que eu passava defronte á terreiros, eu fazia pior ainda, eu fazia pouco dos
membros da religião espírita sambando de vez em quando.
Fora
ordenado á mim para que levasse para o terreiro apenas um charuto, uma caixa de
fósforos, e um maço de velas
Na tarde
de uma quarta feira eu fui ao endereço indicado por minha mãe. Quando lá
cheguei, vi a casa bem acabada e em seu quintal tinha um enorme galpão feito
nos moldes de uma oca. Ele era construído de ripas e toras de arvore, e coberta
de sapê e o piso era de chão batido. O cenário era muito bonito.
Uma
senhora que residia na casa mandou que eu abrisse o portão entrasse e
aguardasse dentro do terreiro. Foi o que eu fiz. Pouco tempo depois chegou uma
moça bonita e perguntou o que eu queria, expliquei á ela e fui mandado aguardar
mais algum tempo.
Depois
chegou o senhor que minha mãe mandou que eu procurasse. Foram chegando outras
pessoas. Não demorou muito tempo para no local ter mais de uma dezena de
necessitados para serem atendidos por aquele médium.
Chegando
á minha vez eu fui convidado a entrar num pequeno quartinho, onde estava aquele
senhor amigo de minha família, sentado em um banquinho, ao seu lado esquerdo
tinha uma tabua negra, com uns riscos de giz branco e uma vela acesa no centro
da tabua.
Vou
sintetizar todas as palavras que tive com o preto velho pai Joaquim de angola.
Eu entrei no quartinho onde o pai Joaquim dava a sua consultas, que me falou,
___Meu filho, sente-se aí e diga-me qual são
os seus problemas.
Já de
inicio eu comecei a duvidar que aquele era um espírito. Pois se é um espírito
porque me perguntar quais eram os meus problemas. Como espírito ele não tinha a
obrigação de saber, não é o certo?.
Não!
Errado. Como espírito ele foi direto na pergunta, para não me deixar
transparecer que ele já sabia o que eu passava naquele momento. Por isso ele me
fez a pergunta. Eu fui claro e direto no assunto, querendo testar a sua
autenticidade como espírito.
___Eu
quero arranjar um emprego, pois eu preciso muito.
___Você
quer arranjar ainda, ou só está esperando ser chamado?
Essa
afirmação me deu entender que ele já tinha alguma informação sobre a minha
pessoa.
___Na
verdade eu estava para trabalhar nas docas mais eu fui reprovado nos exames
médicos.
___Eu
vou revirar aqueles papeis e você
conseguira o teu emprego. A partir de hoje você conta vinte e um dias. Assim
que der esse prazo no outro dia você será chamado para fazer novos exames. Você
será aprovado nos exames médicos e irá trabalhar no porto
Não
estava acreditando naquilo que me falava aquele senhor em nome de um preto
velho chamado Pai Joaquim.
Eu deixei
com a ajudante daquele espírito o maço de velas o charuto e a caixa de
fósforos. Durante o tempo que eu estava conversando com pai Joaquim, aquele
espírito bebeu mais de um litro de vinho branco.
O
espírito (que eu não pensava ser) disse-me antes que eu saísse,
___quando
você estiver trabalhando, do seu primeiro salário você me traga, um pacote de
pólvora preta, três maços de velas brancas, três caixas de fósforos três
charutos e um litro de vinho tinto doce.
Voltei
para minha casa não crendo naquilo que o até então suposto espírito me dissera.
Propositalmente eu comecei a contar os dias passarem. Enquanto isso eu ia
fazendo alguns bicos, pintando as paredes de uma ou outra casa.
A minha
vida não existia mais, por incrível que nos pareça ninguém acredita que um pai
ou uma mãe ou alguém que você muito ama pode morrer de uma hora para a outra.
Comigo
não foi diferente. Se eu já não estava acreditando na existência de DEUS,
quanto mais acreditar existir espíritos.
Eu passei
uma situação jamais desejada para um inimigo. Em casa não tínhamos meu pai o
chefe da casa, o gostosinho, o cabeleira, o cacheado como ele era conhecido.
Não
existia mais aquela fartura, o alimento era escasso, tinha dia que o nosso café
da manhã não tinha o pão de cada dia, vez ou outra minha mãe fazia bolinhos de
farinha de trigo para comermos em substituição ao sagrado pão!
A
situação era tão escabrosa que minha mãe saia para fazer algumas faxinas em
casas de pessoas conhecidas e receber pagamentos pelo serviço. As pessoas que
nos primeiros dias nos ajudavam com alimentação e o dinheiro para o gás e
pagamento da água, impostos e da luz, já não o faziam por também terem
compromissos para honrarem.
Muitos
dias eu fiquei em casa tomando conta de alguns irmãos menores, enquanto minha
mãe dormia fora de casa trabalhando para trazer o nosso sustento. Minha irmã
Efigênia e eu cuidávamos de nosso lar como gentes grandes.
Às vezes
eu pegava os meus irmãos, Aldenir, Marquinhos, e Zeza. Andávamos através de um
mangue que naquele momento estava bastante seco indo por ele até á poucos
metros depois das torres de transmissão elétrica da companhia Docas de Santos,
no lado de Vicente de Carvalho, e lá acampávamos e começávamos a pescar
manjubas e siris.
Num
desses dias em que eu estava pescando o tempo começou á virar. A pesca estava
muito boa para mim, e eu não queria parar naquele momento. Como sempre em que
ia pescar levava comigo um facão, cortei alguns galhos de mangue e em cima de
uma árvore eu montei uma barraca do tipo giral, (isso é o tipo de uma armação
que é feita por caçadores indígenas para esperar a caça vir alimentar-se).
Caiam
raios e desabavam águas e trovoadas. A tempestade não parava. Eu estava com
muito medo, mais aquela seria a nossa alimentação do dia e do amanhã. Quando eu
pensei em desistir não dava mais tempo, pois a maré encheu com tanta violência,
que tivemos que aguardar por mais seis horas, até que a água baixasse.
Caso
saíssemos do giral, corríamos riscos de morrermos afogados. Os dias estavam
passando e eu contando nos dedos. Exatamente quando chegou no vigésimo primeiro
dia, que era o prazo dado pelo espírito, para eu voltar a ser chamado para
fazer um novo exame medico na companhia docas, foi o que aconteceu.
Um
funcionário da companhia portuária veio até a minha casa com uma ordem para eu
comparecer na CDS.
Eu fiz um
novo exame medico e nada constatou, em 10 de outubro de 1966, fui admitido com
trabalhador de serviços diversos da divisão de conservação da companhia Docas de
Santos.
O ser
humano ainda jovem e cheio de ilusões e idéias avançadas por mais besta que ele
seja. Pelo bem ou pelo mal ele sempre carrega um ideal dentro de si. O meu era
trabalhar numa grande empresa, nunca me passou pela cabeça trabalhar no porto.
Eu pensava em Trabalhar na Cosipa e Petrobrás.
Por mais
que tentemos entender uns aos outros menos ficamos senhores de nós mesmos, essa
é a vida esse é o mundo em que vivemos. Os revezes ensina as pessoas que nem
sempre somos os grandes heróis ou os grandes vilões. Ou uma ou outra coisa nos
serve como exemplo.
No meu
primeiro dia de trabalho eu peguei bons profissionais para trabalhar. Aliás, na
CDS trabalhavam descendentes de europeus e muitas gentes boas.
Ao entrar
nessa empresa eu coloquei uma coisa em minha mente, aqui é que eu tenho por
obrigação e devo crescer bastante, em parte eu me enganei, e em parte não!
Na
empresa portuária sempre me mantive dentro da linha. Principalmente por ser
esse o meu primeiro e grande emprego. Sendo muito jovem, tive outros empregos,
mas sem os devidos registros em carteira profissional.
Como
empregado no porto, mantive-me dentro da melhor correção possível. Após
trabalhar na divisão de conservação das linhas férreas por cerca de um ano mais
ou menos, eu pedi através de um requerimento por escrito que foi feito no
sindicato dos operários portuários, para
ser transferido para a divisão de conservação de obras, C .O. N.
Eu sabia
que lá eu teria a chance de fazer algumas horas extras e ganhar melhores
adicionais. Nesse setor os funcionários trabalhavam por alguns meses,
auxiliando mecânicos, ou operadores de bombas de recalques que prestavam
serviços a Petrobrás e aos navios tanques, que encostavam para carga e descarga
no porto de Santos.
Para quem
não conhece a companhia docas de Santos, existia na época um quadro de
carreira. O cidadão poderia entrar como um trabalhador de serviços diversos e
sair como um grande profissional ou um chefe de setor.
Os
servidores da empresa portuária trabalhavam em muitos setores úmidos, frios e
de alto teor de ruído ou insalubre. Havia para nós os trabalhadores, muitas
horas extras e adicionais de insalubridades quando prestávamos serviços nos
sugadores de graneis, ou nos armazéns de cereais (trigo e cevada) da CDS, no
armazém 26.
Quando o
empregado tinha intenção de tornar-se um profissional, era só fazer uma
solicitação por escrito, ou no setor de conciliação da empresa, ou no sindicato
de classe. Outra forma não existia. Na CDS, ninguém era transferido sem um
requerimento por escrito. A mesma coisa já não acontecia para você voltar às
antigas funções.
Bastava
um chefe não gostar de você, e imediatamente ele pedia o seu retorno. Caso
você quisesse voltar ao seu antigo setor
teria que ser por intermédio de oficio feito nos mesmos locais de outrora. Era
difícil ou quase que impossível você ser transferido para um lugar sem o seu
pedido por escrito.
Essa
empresa foi quem me fez ver o mundo de uma forma diferente. Dentro dela eu
comecei a aprender como um verdadeiro soldado aprende no exercito e fica pronto
para uma batalha em defesa de seu país. Eu fiquei pronto para me defender e
defender a minha própria família.
Eu
conheci alguns companheiros que usavam drogas, mais eram ótimos trabalhadores e
bons chefes de famílias. Outros Eram viciados em bebidas alcoólicas e alguns
deles não cuidavam tão bem de seus familiares como os que eram viciados em
psicotrópicos.
No local
de trabalho e na empresa todos eram bem cooperativos e participativos. Só um ou
outro se destoava dos demais colegas.
Apenas
aqueles que tinha os cargos de chefias ou eram os supervisores, e tinham vícios
de usar drogas ou álcool, faziam de tudo para que em suas funções nunca fossem
pegos em fragrante ou não serem repreendidos por quem era ilibado.
A vida na
para mim na CDS foi um espelho do que eu
sou de hoje em dia.
Antes de
completar um ano de empresa eu conheci uma moça. Travamos conhecimento num dos
bailes de um clube de futebol que eu jogava. Com ela eu namorei por pouco tempo. Pelo que me
contava ela tinha muitos problemas familiares e conforme as suas afirmações
sofria maus tratos dos pais, mais tarde eu vi que a verdade era bem diferente
do contado.
Não era
para menos, com a prematura morte de meu pai num grave acidente
automobilístico, eu sentia-me num imenso vazio e num beco sem saída. Naquela
época aquela moça era o instrumento que faltava para preencher as minhas
lacunas físicas emocionais e espirituais.
No inicio
nos dávamos tão bem que eu pensava amar aquela moça. Na verdade era uma paixão
momentânea nunca um verdadeiro amor. Eu ainda residia na casa de meus avós em
Santos. Eu continuava vindo para Vicente de Carvalho nos finais de semana, para
visitar minha mãe e meus irmãos.
Logo que
eu conheci a moça deu-se para ver que ela era gente de boa família, começamos a
nos encontrar e a namorar até altas horas da noite. Eu nunca fui de abusar de
nenhuma moça séria. Por isso eu a namorei normalmente apenas se beijando e
algumas esfrega-esfregas.
Eu nunca
me importei e nem quis saber quem era a sua família, eu vivia afastado desses
problemas de casamento imaturos ou cedo demais.
Apesar de
meu pai já ser um velho conhecido da família da moça. Nós continuamos a namorar
ás escondido, até que um colega de clube me disse que aquela jovem não era mais
virgem, pois muitos foram os namorados dela.
O que me
disseram os meus colegas não refletiu negativamente no meu namoro mais me
aguçou a curiosidade da não virgindade da jovem. Numa noite que estávamos
namorando, eu perguntei á ela,
___MAGDA!,
(nome fictício), você ainda é virgem?
___Não!
Eu não sou mais virgem! Porque?
Aquilo me
abriu as portas para que eu pudesse namorar e satisfazer as minhas vontades
sexuais. Mesmo assim eu não queria ser um intruso e estragar com o seu segredo e sua vida privada.
Na
primeira noite em que eu fui avançar o sinal eu fui devagar, e perguntei,
___Você
Nunca teve vontade ter relações sexuais comigo?
___Sim!
Mais se eu ficar grávida, quem vai cuidar de meu filho? Disse Magda.
Mesmo
sabendo que os mesmos riscos que eu corria tendo relações sexuais com ela era o
mesmo risco que os outros seus namorados correram. Cada um é responsável pelos
seus atos.
___Eu
cuido! Eu sou bastante homem para isso!
Nós
continuamos a namorar e a manter relações sexuais às escondidas até o dia em
que ela chegou para mim e disse,
___Eu
acho que estou grávida!
Aquilo
não me abalou e não chegou á me deixou contente também. Eu cheguei e disse á
ela,
___Então,
na próxima segunda feira depois que eu sair do trabalho, vou até a tua casa
falar com os teus pais.
Ela toda
assustada me disse,
___Você
não acha melhor dar mais um tempo? Pode ser que seja um sinal falso.
___Nada
disso ! Tem que ser na segunda feira mesmo!
Muito
preocupada ela diz,
___Deixa
primeiro eu falar com a minha mãe. Depois eu te confirmo se meu pai pode
recebê-lo!
___Está
certo Magda. Mais com ou sem a sua resposta, na segunda feira eu irei até a sua
casa falar com o teu pai.
Eu já
sabia que o pai da moça por ser do rio grande do sul era conhecido pelo apelido
de gaúcho. Ele era tido e metido a bravo. Ele tinha por costumes falar bem alto
e grosso, mais no fundo ele era boa pessoa. Quando foi na segunda feira eu
cheguei na casa da moça as 18:30 horas, o pai dela não estava, porque o trem
que o trazia da cosipa tinha atrasado.
Fui
recebido na porta pela mãe dela que muito gentil e meio espalhafatosa me disse,
___Escuta
aqui meu filho, o gaúcho ainda não chegou. Quando ele chegar fale devagar, pois
ele é muito nervoso e por pouca coisa ele se esquenta.
Poucos minutos
depois eu o ouvi abrir o portão da casa, era ele chegando!
Assim que
o tal gaúcho chegou, ele abriu o portão da casa bem devagar, deu uma pequena
parada nos primeiros degraus da escada da casa, olhou para dentro da casa e me
viu sentado em uma cadeira na sala.
Subiu as
escadas (eram apenas cinco degraus), eu o cumprimentei com uma boa noite e ele
apenas respondeu balançando com a cabeça.
Depois
que entrou na sala, ele tirou da cabeça o chapéu de couro marrom e pendurou-o
numa chapeleira. Foi até a cozinha bebeu um pouco de água de um filtro de
barro. Voltou para a sala, pegou um punhal todo de prata que estava dentro de
em uma bainha pendurada ao lado de uma espingarda cartucheira.
Sentou-se
em uma cadeira que ficava ao lado de uma janela, começou a limpar as unhas da
mão com o punhal e pela primeira vez trocou algumas palavras comigo.
___Boa
noite (era quase sete e meia da noite), ele demorou uns quinze minutos para me
responder minha boa noite! Você queria falar comigo?
___Sim
senhor João! Eu queria falar com o senhor (esse era o seu primeiro nome de
batismo).
___Sobre
o quê?
Quando
ele me perguntou qual era o assunto, a mãe e a moça saíram à sala.
___Eu
queria pedir a mão de sua filha em casamento. Eu quero a sua autorização para
me casar com ela
___Mais é
assim e logo de cara? Posso saber onde é que você trabalha?
___Trabalho
na companhia docas.
___Ela é
muito nova, tem apenas dezesseis anos não é melhor vocês esperarem um pouco
mais?
___Eu
quero casar ainda esse ano, eu não quero esperar muito tempo, não!
Nesse
momento ele chama a sua esposa para pedir a sua opinião.
___Santinha,
venha cá para nós conversarmos!
A mulher
veio até a sala, sempre acompanhada da filha.
___O
rapaz está querendo casar com nossa filha, o que você diz?
Respondendo
afirmativamente com a cabeça ela aceitou. Ele vira-se para mim e diz,
___Eu
espero que você saiba o que está fazendo. Espero que mais tarde você não venha
a se arrepender, principalmente por
casar as pressas. Até parece que você está tirando o pai da forca!
___Não é
nada disso, eu estou querendo casar para
não ficar muito tempo enrolando!
___Os
seus pais concordam com esse seu
casamento?
___O meu
pai é falecido ! Mas a minha mãe com certeza concorda.
___Você é
quem sabe! Você já falou com ela sobre esse assunto?
___Não!
Eu não falei, e nem é preciso, com toda a certeza ela concordaria se eu
contasse das minhas intenções.
___Se
você está querendo e minha filha também, eu só devo concordar com o vosso
casamento.
O que
ninguém menos esperava era o que eu diria a seguir.
___Eu não
sou de esconder nada de ninguém, eu vou me casar com a sua filha, mas desde já
eu confesso que ela está grávida e espera um filho meu! Só que tem uma outra
coisa, quando eu a conheci, ela não era mais virgem.
Depois eu
passei a namorar dentro da casa da jovem Magda. Cheguei em casa e contei para a
minha mãe qual era o meu problema. Para me casar eu só recebi o apoio de minha
mãe. Os outros meus familiares não ficaram de acordo, só contra. Também não dei
importância a isso, porque depois da morte de meu pai, eu e meus irmãos éramos
enxovalhados de criticas e quase nenhuma ajuda.
Aí eu
trepava com a moça tanto na minha casa, como na casa dela, inclusive ela já
dormia em minha casa, e assim foi até o meu casamento. Depois que eu me casei,
voltei para morar na casa de minha mãe em
Vicente de Carvalho.
Alguns
meses depois de ter se casado nasceu o meu primogênito que era uma menina. Não
demorou muito tempo e houve a primeira e a única confusão entre minha esposa e
minha mãe.
Conforme
o que eu soube de uma só parte, (minha mãe), minha mãe foi fazer uma
brincadeira, e minha esposa retrucou asperamente. Nesse dia houve o maior
bafafá, minha esposa pegou a minha filha de alguns meses apenas e retornou para
a casa dos seus pais.
Não teve
outra, eu fui obrigado a acompanhá-la e a partir daí eu passei a morar na casa
de meu sogro.
A minha
vida de casado começou a se conturbar, depois de que comecei morar na casa dos
pais de minha esposa. Mesmo eles sendo boas pessoas, alguma coisa não andava
dando certo. Eu ganhava o razoável para
ir levando a vida, mais não para pagar um aluguel ou comprar uma casa que
naquela época eram caros. Eu tinha que conseguir mudar de setor, na empresa
portuária para que os meus ganhos fossem maiores. Tentei fazer dentro da CDS
vários concursos que por lá eram oferecidos. Mais sequer eu era avisado bem a
tempo por meus companheiros.
Na
empresa portuária não existia uma coisa que em algumas outras empresas tinham, ou
seja, o censo de humanidade. Por isso muitas chances eu tinha perdido dentro da
empresa.
Mesmo
assim eu comecei a comprar alguns materiais de construção para construir uma
casa nos fundos do terreno pertencente ao meu sogro. Enquanto a minha casa ia
sendo construída eu ficava residindo com meus sogros.
Por ser
uma grande empresa a companhia Docas de Santos, dava chances para quem quisesse
progredir e estudar dentro da própria empresa uma profissão que ele gostasse.
Ali mesmo
o cidadão tinha essa chance. Todas as portas lhe eram abertas dentro da empresa. No meu caso, no final de minha
caminhada como empregado do porto, o que pesou e barrou as minhas intenções foi
um simples detalhe:
Foi para
mim o ponto mais marcante de minha vida como um jovem que só queria crescer na
vida e dentro da empresa sem ninguém prejudicar. Esse simples mais grave
detalhe foi o que me deixou profundas cicatrizes. Mais de um outro lado me
serviu como ensinamento.
Dando-me
um exemplo para que no futuro não mais
voltasse a acontecer às mesmas coisas. De todas as empresas que eu tenha
trabalhado, foi à companhia docas de Santos a que mais me machucou
internamente, mais foi também a única que me fez não esquecê-la!
Certa vez
eu foi prestar um concurso para agente da policia portuária. A função do agente
de policia portuária era investigar e inspecionar tudo o que acontece no cais
do porto ou em suas propriedades e cercanias. Ele faz as ocorrências e através
dele muitos inquéritos eram instaurados dentro da CDS, e conforme a gravidade,
são os inquéritos repassados a policia civil, federal e a capitania dos portos,
ou a sunamam, (superintendência nacional da marinha mercante), que nessa época
existia.
O agente
da policia portuária era uns dos mais altos salários, afora algumas ajudas de
custos especial. Andava á paisana e tinha um campo de ação irrestrito. Ele era
chefiado pela mesma pessoa que zelava pelos guardas portuários. Todos, os
guardas portuários e os agentes portuários na época respondiam indiretamente ao capitão dos
portos de Santos e diretamente á um departamento da CDS, conhecidos pela sigla
setenta. Qualquer uma ocorrência que tivesse que fazer, a primeira coisa ou
palavra que se dizia era, ___Chame o setenta!.
Na data
em que fora aberto um concurso para agente da policia portuária, eu fui avisado
por um amigo que sabia que eu houvera efetuado um curso de investigador pela
IICC, Instituto de Investigação Cientifica e Criminal do Rio de janeiro de
propriedade do detetive BECHARA JALK.
No dia em
que eu fiz o requerimento para esse concurso no sindicato dos operários
portuário, houve muita admiração. Eu era um empregado muito jovem. Com poucos
anos de trabalho e sem muita experiência no emprego. Houve pessoas que acharam
muita ousadia de minha parte.
Mesmo
assim eu fui chamado para prestar o concurso e concorrer com mais de uma
centena de pessoas. Todas as matérias eram eliminatórias.
Fui
vencendo etapa por etapa. O concurso foi efetuado em vários dias e dentro do
próprio prédio da inspetoria portuária. No final de tudo. Após muitas
eliminações de pessoas capacitadas e com um certo conceito perante a empresa,
ficaram apenas três pessoas.
Eu e
outras duas pessoas ficamos lutando ponto á ponto pela vaga e o cargo de agente
da policia portuária. Quando eu entrei no concurso sabia que dificilmente eu
seria escolhido, e sabia também que não seria impossível, porque os exames
físicos e os exames de laboratorio poderiam eliminar as pretensões de alguém.
Era de
meu conhecimento que somente um de nós ganharia
a vaga disponível. No final de tudo quem acabou ganhando a única vaga
existente e com muitos méritos, foi um companheiro de nome (Antoninho).
A
anterior função de Antoninho era nada mais do que o funcionário direto
(continuo), do engenheiro Dr.Saulo Pires Viana.
Mais
tarde através de um outro requerimento por escrito eu solicitei para ser
transferido na mesma função de trabalhador de serviços diversos para a divisão
de eletricidade do cais. Novamente lembrando que todas as transferências dentro
da empresa eram feitas sempre com uma carta ou um requerimento, ninguém era
transferido á sua revelia.
Sempre
estive lutando para manter o meu padrão de vida no melhor nível possível ou no
mesmo limite. De tudo eu fazia um pouco. Eu não esperava que muitas coisas
ruins viessem num futuro não muito distante.
Nessa
época em todo mundo eu confiava. Nunca tive inimigo, pelo contrário, tinha
amigos demais. Nunca fui chamado de morcego (na gíria portuária queria dizer
trabalhador que se esconde ou fazia de tudo para trabalhar menos que os demais
companheiros).
Em 1970,
sabendo que o setor da companhia docas de Santos onde os salários eram
completados por boas horas extras e outros adicionais. E que nessa divisão
existia o quadro de carreiras que davam enormes chances de progresso, assim
como nas outras divisões.
Eu optei
para pedir a minha transferência para trabalhar na divisão de eletricidade, nos
reparos de guindastes.
No porto
de Santos, os trabalhadores faziam de tudo para ter uma chance de trabalhar na
divisão elétrica, ou no pessoal de turmas de carga e descarga ou então como
motoreiro de guindastes elétricos ou manobristas de maquinas. Eram nessas
funções os maiores ganhos dentro da empresa portuária. Existiam alguns outros
cargos, mais não eram competitivos. Como um trabalhador de serviços diversos eu
tinha uma enorme chance de em apenas alguns meses de trabalho formar-se um
eletricista.
Baseando-se
nisso eu solicitei através de um requerimento feito no sindicato dos operários,
a minha transferência para a D.E da manutenção dos guindastes elétricos do
cais. Com muita sorte e competência consegui ser transferido para o setor
desejado.
O meu
primeiro dia de trabalho naquela divisão foi dentro da das oficinas na área da
administração.
Ali eu
comecei a fazer a limpeza dos vestiários e de todo o prédio da oficina. Sabendo
que toda a chefia estava me olhando, eu fazia o máximo para produzir mais do
que os outros trabalhadores.
Depois eu
comecei a trabalhar ajudando na divisão de telefonia e alguns dias depois eu
fui transferido para a subestação elétrica de manutenção dos guindastes do cais
no armazém 23 do porto de Santos.
A minha
função era jatear e lavar os guindastes com bombas de águas de altas pressões.
Lubrificar os guindastes, ajudar os ajustadores mecânico, assim como ajudar os
eletricistas a consertar guindastes elétricos e mais alguns tipos de serviços
que pudessem surgir.
No final
do mês devido às horas extras os nossos salários eram recompensáveis. Pouco
tempo depois e ainda em 1970, eu fui transferido para trabalhar no terminal
para fertilizantes do cais de conceiçãozinha.
Para mim
foi uma outra grande vantagem ir trabalhar nesse terminal de fertilizantes,
pois ele era mais próximo de minha casa em Vicente de Carvalho.
Quando a
pessoa é inexperiente na vida às vezes ele precisa de orientações, e às vezes
nem isso ele aceita por achar que já sabe de tudo. Na verdade e na minha
idade eu tinha pouca experiência dos
problemas que um ser humano deve enfrentar, e muita experiência em matéria de
sexo.
Se de um
lado eu levava algumas vantagens, de um outro eu perdia muito. A vida é uma
escola onde nós podemos aprender bastante ou ser reprovado no decorrer dos
tempos.
A minha
vontade em crescer na vida foi tanta que por ser inexperiente quanto a maldade
do ser humano, eu fui me jogar num abismo quase que se fim ao ser transferido
para a divisão de eletricidade do cais.
Foi a
pior coisa que eu fiz pedindo para ser transferido para a divisão de
eletricidade. Eu iria arrepender-me redondamente pelo resto de minha vida. Por
querer muito escolher, a inexperiência levou-me á garganta de uns verdadeiros
cães de guerra.
Estava
querendo o melhor para a minha família com isso enganei-me redondamente. Mais
tarde, ás coisas ficaria pior por minha grande inocência e por confiar naqueles
com quem se convive o dia á dia.
Por isso
eu pagaria muito caro, principalmente por
ser muito ambicioso e ousado.
Na
divisão elétrica em si não faltavam profissionais competentes. Não faltavam os
grandes amigos. Não faltavam os competentes chefes. Na divisão de manutenção
dos guindastes elétricos do cais apenas existia uma grande falha, eram as
concorrências internas entre os incompetentes e suas ambições de obterem cargos
de chefia, sem terem para isso as devidas condições morais. Muitos cachimbos
(substitutos dos chefes), que auxiliam a chefia, são pessoas que por ter muito
tempo de casa cobrem as faltas e as férias de um chefe.
Para a
divisão de eletricidade do cais do terminal de fertilizantes de conceiçãozinha
foram enviados para lá, muitas pessoas sem nenhuma moral administrativa ou de
caráter. Por morar bem perto do local de
trabalho, me transferiram para aquela área, junto com outros que eram
alcoólatras e até viciados em maconhas e outras drogas químicas.
Para lá
foi de tudo até pessoas ligadas a tráficos de mulheres e contrabandistas que
existiam dentro da companhia docas de Santos. Era uma verdadeira ilha de
Alcatrazes e não ilha de Santo Amaro como estava no mapa.
Nessa
época fui transferido numa primeira juntamente com outros seis profissionais
para o terminal, mais tarde foram enviados para lá outras cinqüenta pessoas.
Tudo transcorria normalmente quando eu sou procurado naquele local por uma
pessoa que era muito amiga de meu pai e bem ligado artisticamente e
politicamente à família de minha mãe. Isso pesou muito para que eu fosse
convocado para ingressar numa rede clandestina de informação do cais de
conceiçãozinha e que seria ligada aos militares ditadores. A ela fora dado o
nome de RICC.
O que
aconteceu foi o seguinte, num certo dia naquele
terminal numa hora de almoço, eu recebi a visita de uma pessoa amiga de
minha família, de nome Jose Bueno, conhecido por nós com o nome artístico de Zé
minhoca, ele era filho de um ex-prefeito de Guarujá na época da ditadura
militar. No restante do porto de Santos Jose Bueno era conhecido como
“delegado”, ou “DETETIVE”.
Se existe
um satanás em pessoa esse cidadão era um deles. Nesse mesmo dia ele ficou
lembrando como era o meu pai como homem, nós conversamos durante toda a hora de
almoço enquanto ele eu aguardávamos a chegada de um navio liberiano carregado
de apatita ou fosforita para ser descarregado nos armazéns do terminal de
fertilizantes.
Por
trabalhar na turma de atracadores de navios, ele aguardava a chegada deste para
atracá-lo no cais. Enquanto eu também esperava a atracação do navio para
engatar o tipo de grabe certo nos guindastes elétricos que descarregariam os
porões do navio.
Não foi
nenhuma coincidência tanto eu ser mandado para trabalhar no terminal, assim
como a ida de Zé minhoca naquele local para atracar um navio carregado de
adubos.
Foi aí, e
depois de muito conversarmos ele me saiu com uma proposta muito estranha mais
para mim e por minha inexperiência foi tentadora. Ele me disse o seguinte,
___Gostozinho,
nós nos conhecemos muito bem assim como eu conheci o seu pai e tua família. Eu
tenho uma proposta para você!
Pensando
que se tratava de algo sobre teatro eu falei,
___Se é
coisa boa, pode me dizer qual é a tua proposta que irei estudar com muito
carinho.
___O caso
é o seguinte. O DP de docas estudou toda a tua folha de fé de oficio e me
pediram para falar com você se aceitas trabalhar conosco numa grande
empreitada.
Ainda não
sabendo qual era o assunto eu pedi á ele maiores informações,
___Que
empreitada é essa!
___Estão
te convidando para trabalhar ao lado de pessoas ligadas a docas, a capitania
dos portos e do governo federal.
Eu
estranhara essa pedida. Pensava até tratar-se de uma piada, pois o conhecia
como ator de teatro e palhaço, onde adquiriu apelido de Zé minhoca.
Zé
minhoca fez o convite á mim dizendo-se vir em nome do chefe do departamento de
pessoal, Dr.Luiz Eduardo de Magalhães gama.
Ele
descreveu toda a minha ficha pessoal dentro da empresa. Apesar de conhecer-me,
ele veio bem instruído, dizendo coisas que só o SEPES tinha conhecimento.
Sendo
muito jovem e um verdadeiro imbecil, comecei passivamente a aceitar o convite.
Antes porem, eu fui convidado a conversar pessoalmente com o Dr. Luiz Eduardo.
Fato realizado dois dias depois do encontro entre eu e Zé minhoca.
Todos os
Jovens que não tem certa experiência na vida, cometem erros que ás vezes
tornam-se irrecuperáveis. Comigo não foi bem diferente.
No dia em
que conversei com o DR.Luiz Eduardo eu fiquei sabendo que ele seria o chefe (da
central alfa). Recebi dele algumas instruções e os detalhes de como seria
formada e o modus operandis da chamada
REDE DE INFORMAÇAO DO CAIS, (RIC). Em conceiçãozinha seria RICC.
O Central
Alfa, me instruiu á Infiltrar-se entre os trabalhadores portuários,
(estivadores, doqueiros, consertadores de carga e descarga e a população
marítima, dentro de navios etc.) Investigar os atos e os movimentos contra o
governo federal (os militares na época da ditadura), informando diretamente a
central alfa.
Recebi a
informação que entrar em contacto com a central alfa pessoalmente era quase que
proibido, mas dependendo das informações nós poderíamos fazer esses contatos
desde que não levantassem suspeitas.
Por desconfiar
de quase todo mundo muitas vezes eu fiz um contacto pessoal com a central alfa.
Na RIC
nada poderia ser passada para central alfa via telefone. Em alguns casos
devíamos levar a carta pessoalmente ao Dr. Luiz Eduardo de Magalhães Gama, mas
isso raramente acontecia comigo, salvo as exceções.
Por saber
de se tratar de uma coisa séria e por não desconfiar que esses tipos de
informações eram ilegais, dependendo do caso que eu descobria, eu quebrava
essas regras e telefonava ao Central Alfa ou ia pessoalmente falar com o
responsável pela rede de informações.
Para tudo
tinha uma normativa e toda uma cerimônia, aliás, uma falsa cerimônia. Da mesma
forma que o central alfa queria ficar no anonimato dos outros milhares de
empregados da companhia docas de Santos, eu também o era o para a minha maior
segurança eu passaria a entregar os meus envelopes diretamente ao cabeça da
rede de informações.
Devido ao
acumulo de informações enviadas por outros agentes houve uma contra ordem para
que as informações fossem entregues pessoalmente ao agente portuário de nome DI
BIASI (antigamente eu o chamava de DEBIÁZES, sem saber o seu nome correto, pois
nunca me veio escrito em mãos). Esse rapaz era um sargento da base aérea de
Santos e membro do SNI (Serviço nacional de informações do governo militar).
DI BIASI
tinha uma caixa postal na sede da empresa dos correios no centro de Santos, bem
ao lado da prefeitura municipal. Ou senão nós deveríamos levar todas as nossas
informações na casa do agente Zé minhoca, que morava em um conjunto de
micro-sobrados, na rua Santos Dumont no bairro do macuco em Santos.
Tinha
também uma outra opção postar as cartas
e as informações numa caixa postal nos correios (101) NO CENTRO DA CIDADE DE
SANTOS AO LADO DA PREFEITURA MUNICIPAL, em nome de LUIZ EDUARDO DE MAGALHAES
GAMA. Tudo teria que ser feito de formas á não levantar suspeitas.
Muitas
informações que os outros agentes iam dando eram em boa parte falsas ou
fantasiosas. No meu caso eu só informava aquilo que eu tinha certeza ou
vislumbrava. Aos pouco sabíamos quem
eram quase todos os agentes da RIC e os seus locais de trabalhos.
Tudo era
feito em pleno segredo. A apenas eu tinha o conhecimento de alguns dos
informantes dessa famigerada rede, devido ao fato dos laços de amizades que meu
pai em vida mantinham com as famílias dessas pessoas. Por não desconfiarem de que eu era um agente
de informação, eles abriam os bicos para mim e se declaravam espiões.
A agencia
de informação era composta por dezenas de informantes, cada departamento tinha
uma ou mais pessoas, eram uns para olhar o que os outros faziam.
No cais
de conceiçãozinha, em Guarujá, eu era o agente 055 (na face do envelope deveria
apenas constar companhia docas de Santos departamento de pessoa e no verso do
mesmo envelope deveria ser apenas colocado RICC 055).
No setor
de atracadores de navio era um jovem rapaz, o sobrinho de Zé minhoca. A minha
suspeita se fundamentava de que não houve coincidência de Zé minhoca ter ido
especialmente no terminal me convidar para entrar como membro da RIC no dia que
atracava o navio liberiano carregado de adubos. Já que na época ele trabalhava
como manobreiro maquinas e vagões.
O
informante no setor de manobra de maquinas e vagões era o Zé minhoca. Esse
informante iniciou na Companhia docas de Santos como atracador de navios,
depois foi transferido para manobrista de vagões. Afora essas funções Zé
minhoca tinha um escritório de detetive particular (também era comissariado de
menores), ele era num pequeno prédio de
apenas dois andares na Avenida Thiago Ferreira, ao lado de um cartorio de
registros civil e defronte da praça 14 BIS no distrito de Vicente de Carvalho,
no município de Guarujá. Ele também era tido como juiz de menor naquele
município.
Quando
saí da empresa obtive á informação de que tinha sido fora promovido á agente da policia portuária.
No
setenta, (policia portuária) ou no grupo de agentes secretas das policias
portuárias, o responsável era Di Biasi. Ele era o espião que espionava o porto
e os próprios colegas, quer dizer ele era o delator de seus colegas ao SNI.
Depois eu
fui transferido á minha revelia para
setor de operação de guindastes ou motoreiros. Apesar de existirem
outras pessoas como informantes daquele setor eu fui para lá a mando da central
alfa. Eu fui colocado numa função onde poderia olhar trabalhar e investigar
todas as áreas do porto de Santos sem causar a desconfiança de ninguém.
No setor,
como motoreiro da companhia Docas, fiquei menos de um mês como funcionário.
Para sair daquele setor eu tive que causar a maior confusão. Inclusive fui
obrigado á procurar o meu sindicato de classe. Para ser admitido em outros
setores da companhia, primeiro você tinha que ser aprovados em vários outros
exames médicos e psicológicos. Eu fiz de tudo para ser reprovado nos exames
inclusive eu confessei aos médicos que me examinavam que eu não queria e nem
tinha pedido a minha transferência para motoreiro de guindastes. Mesmo assim
eles teimaram em me transferir para aquela divisão.
Só depois
de muito reclamar e que eles me retornaram para o terminal de fertilizantes do
cais de conceiçãozinha. Como motoreiro eu ganharia mais dividendos, mais em
compensação eu estaria bem mais longe de minha residência.
Uma
observação: Ninguém ficou tão pouco tempo na função de motoreiro como eu
fiquei. Prova de que fui eu mesmo que pedi o meu desligamento da função. Numa
outra situação, em caso de avarias de aparelhos, acidentes com pessoal da
capatazia ou outras faltas consideradas graves, o funcionário primeiro
respondia um inquérito administrativo, e num ultimo caso ele era desligado das
funções noventa dias depois. Eu bati um recorde, trabalhei apenas vinte e três
dias como motoreiro de guindastes elétricos.
No setor
dos funcionários anotadores de pontos, o agente era um jovem funcionário do
departamento de pessoal da companhia docas chamado Paulo Cecílio.
O
departamento de pessoal era muito conhecido entre os portuários por “gestapo”
(referencia da gestapo, policia secreta de Hitler, por suas incursões
inesperadas á qualquer hora do dia ou da noite, e até nas madrugadas nos
setores de trabalho).
A maior
finalidade da “Gestapo” era flagrar a fuga de funcionários do local de
trabalho. Flagrar funcionários que marcavam o cartão de ponto de outro
funcionário. Flagrar funcionários que dormiam
no local de trabalho.
A regra
de não proibir dormir no local de trabalho só era valido no caso dos
trabalhadores de carga e descarga. Pois eles trabalhavam em turmas alternadas e
corriam os chamados quartos de horários.
Quando de
funcionários de outras funções essa regra não ficava valendo. Os trabalhadores
de armazéns que também trabalhavam em regimes alternados, se eles fossem pegos
dormindo seriam suspensos e às vezes até demitidos.
Eu só não
sabia qual era a totalidade de agentes pertencentes à rede de espionagem do
cais, á RIC.
Em minha
época pelo que me constava seriam mais de sessenta pessoas que ficavam
espionando todos os movimentos de quem participava da vida portuária. Todos só
tinham um intuito, servir de alcagüetes para o SNI, ou em auxilio dos governos
militares.
Eu sequer
percebia que minha pessoa estava num tipo de trabalho bem nojento e gratuito
Verdadeiramente
não sei quem foi o criador da rede de informação do cais. Mas a única
finalidade dela era fazer com que as pessoas escolhidas fizessem um papel de
espião dentro do porto. Os trabalhos dos agentes de informações do cais eram.
Prestar
serviços de informação aos governos militares. Prestar serviços de informação
gratuitos (alcagoetagens) de Movimentos
sindicalistas, movimentos paredistas, furtos, contrabandos, sabotagens,
desmontar aparelhos comunistas, investigar
as mais diversas contravenções possíveis para atender os instintos do
governo federal.
Esses
tipos de agentes de informações eram muito comum dentro das grandes empresas no
Brasil, na época da ditadura militar. Eles eram embrenhados em locais aonde
existiam as áreas consideradas de
segurança nacional.
Esse tipo
de agencia de informação existia também na Petrobrás, e na cosipa, (Companhia
Siderúrgica Paulista).
Se não me
falha a memória, no ano de 1997 a rede de informação da Cosipa, foi denunciada para a imprensa local pelos
seus próprios integrantes.
Ex-funcionários
da companhia siderúrgica paulista, que se sentiram perseguidos pela direção da
empresa, foram à sede de um jornal na baixada santista e fizeram essas denuncia.
Muitas
informações que eram obtidas por nós nas investigações foram desviadas para as
formas de perseguições políticas, principalmente dentro das empresas aonde
tinham essas redes de espionagens, tais como a companhia docas de Santos, a
companhia Siderúrgica paulista, cosipa. E a Petrobrás.
A minha
juventude somadas as minhas burrices feitas como empregado da Companhia Docas
de Santos. Não desconfiava que a aventura aceita por mim iria causar-me muitos
problemas, assim como causaria problemas às outras pessoas que tinham muitos
sonhos ou ideais.
Para
fazermos as investigações em horários que devíamos estar trabalhando. Nós
alegávamos as nossas chefias que iríamos até o departamento de pessoal da
empresa (setor de requerimentos e conciliação do DP). Com isso as nossas faltas
ou as saídas em horário de trabalho para investigarmos os outros setores não
levantariam nenhuma suspeitas de ninguém.
Quando
não era dessa forma, éramos chamados pela central alfa, para irmos ao
departamento de pessoal da Empresa para assinarmos alguns documentos. Às vezes
essas solicitações era feito dessas formas para não ficarmos sob as suspeitas de nossos chefes.
Quando
dei conta de mim que eu estava cometendo um grande erro e quis parar com as
denuncias, não consegui porque comecei a ser perseguido pela RIC. Foi aí que
percebi estar dentro da boca de um grande tubarão. Tentei desesperadamente
fugir, aí já era tarde.
Com o
passar do tempo percebi que minha pessoa estava sendo usada como arma pelo
chefe da central alfa, quando de uma informação muito importante cedida por mim
e que tinha pessoas da própria codesp (CDS na época) envolvidas num caso muito
especial que envolvia um engenheiro da divisão de eletricidade de Itatinga..
Eles também tinham um plano de me desmoralizar perante á empresa e meus colegas
de trabalho, isso já era esperado por mim. Como estava havendo um certo boato
entre o pessoal da divisão de eletricidade do cais. Que um certo engenheiro que
trabalhava na usina elétrica de Itatinga, estava mantendo um caso amoroso com a
filha de um morador da localidade.
Por isso
ele estava mantinha financeiramente a menina que era menor de idade.
Aproveitando disso, o chefe da central alfa chamou-me para falar com ele sobre
o assunto. Essa informação eu soubera de um eletricista chamado IVO PAZ, (nome
fictício).
O que o
chefe da central alfa também não sabia que eu fora avisado por um dos chefes da
divisão de eletricidade (chamado Henrique Helder Damy), de que um engenheiro
chamado doutor Ariovaldo, estaria uma outra sala do departamento pessoal
ouvindo de forma escondida, (via interfone), o que eu iria relatar ou
responder. Tudo era uma trama, um descobria o que iria acontecer e me avisava
para nada falar o outro me avisava que eu deveria falar tudo e não esconder o
que eu sabia. Alguém estava querendo derrubar alguém.
Após a
central alfa receber as minhas informações, sobre o tal engenheiro, Dr. Paula
de Freitas Eu fui convidado para comparecer no departamento de pessoal para
falar com o Dr Luiz Eduardo. Lá chegando fui convidado a entrar. Na sala tinha
uma outra pessoa junto ao Chefe da central alfa, (Dr.Ayrton). Ele apresentou-me
ao estranho como eu sendo um funcionário
de confiança da empresa. Fez-me perguntas sobre os assuntos já enviados por
cartas. Eu me senti traído e fiquei revoltado dali em diante eu comecei a
mostrar o meu lado racional de não aceitar imposições errôneas por parte de
ninguém.
Houvera
dois graves erros me chamando para uma reunião para a troca de informações com
a presença de testemunhas. A primeira é que o tratado fora quebrado de forma
unilateral, onde não deveria haver testemunhas que pudesse detonar a rede de
informações. A segunda é que eu fui avisado pelo “delegado” de que haveria um
representante da capitania dos portos ouvindo-me para passar a minha delação á
Sunamam, (superintendência nacional da marinha mercante).
Desconfiando
de que tinha entrado numa tremenda arapuca e que os fatos já estavam passando
dos limites.
E que não
era essa a forma acertada de se obter as informações no porto e alem de não ser
a minha função. Isso começou a me dar nojo e raiva do que estava fazendo.
Já com o
saco cheio de fazer um papel ridículo, assim que eu entrei na sala do central
alfa fui mandado sentar numa cadeira e na outra estava o dito cujo intruso.
Central
alfa pé apresenta,
___Esse é
o nosso grande empregado de confiança.
Eu
apertei á mão gélida do estranho e olhei as caras deslavadas do dois. E começo
á ser interlocutado,
___João!
(outro erro ter me chamado pelo nome) Eu soube que o doutor Paula Freitas, teve
um problema de envolvimento como uma moça menor de idade em itatinga e
parece-me que está dando uma grande confusão naquele local é verdade isso?
Eu dei a
resposta não esperada.
___Eu não
sei! O senhor é que está falando.
Pelo
visto ele não gostou.
___Mais
você é que trabalha na divisão de eletricidade.
___Isso
eu sei, mais as particularidades dos outros não me compete regular e nem
comentar.
O central
alfa vai mais alem...
___Eu
soube que o teu engenheiro Chefe o Doutor Farias anda mandando um funcionário
da divisão elétrica comprar um medicamento contra impotência sexual, chamado
AHK500, á bordo dos navios da coroa é
verdade?
___Se
isso é verdade eu não sei. Nada eu ouvi falar sobre esse assunto!
Tudo o
que ele estava me perguntando e eu negando, já eram as minhas informações
cedidas á ele através de cartas e eram verdades. Acontece que o Doutor Paula de
Freitas, se envolveu como uma moça menor de idade, ele já tinha quase sessenta
anos, e em itatinga criou-se uma tremenda confusão. Itatinga uma antiga usina
hidroelétrica construída pelos ingleses a qual dera o nome a Vila. Ali só
moravam os trabalhadores da companhia docas de Santos. Lá tinha de tudo, desde
um cinema, uma igreja, um posto médico, e um clube social. A única forma de ir para aquele
local era através de barcas ou lanchas que iam pelos rios e estuários.
O caso do
doutor Faria, foi o seguinte, ele era impotente e usava de uma medicação
chamada AHK500, que eram compradas nos navios de bandeiras holandesas mais
conhecidos por navio da coroa, que era o símbolo que essa nau trazia estampada
em sua chaminé.
Depois
desse encontro tornou-se uma guerra entre
facções, Central Alfa e eu.
De outras
vezes quando eu era convidado a comparecer no departamento de pessoal para
falar sobre certos assuntos eu recusava-me a fazê-lo, não atendendo ao chamado
da central alfa.
Qualquer
um assunto que minha pessoa comentasse com Zé minhoca, imediatamente minhas
palavras eram levadas ao departamento de pessoal. Certo dia eu mandei via
correios uma carta á central alfa, dizendo ter resolvido abandonar a rede de
informações.
Dois dias
depois apareceu um bilhete grampeado no meu cartão de ponto onde estava escrito
á maquina,
___Não seja
bobo garoto, continue com os seus estudos. Agora não dá mais para abandonar!
Eu
entendi aquilo como uma ameaça. Minha pessoa sabia que estava andando de forma
correta dentro do emprego e ser ameaçado. Ainda mais eu que não aceitava
pressão de ninguém. Quando isso me acontece sei que me tornando perigoso,
demais pois eu nunca gosto de ameaças e jamais ameacei alguém.
Certa vez
foi exigida a minha presença urgente no departamento de pessoal, as 18:00
horas. Lá chegando o chefe do departamento de pessoal (senhor Coelho, um
homônimo de meu tio), mandou-me que assinasse uns papéis. Quando li os papeis,
percebi tratar-se de uma transferência para motoreiro, (operador de guindastes
elétricos), eu não tinha solicitado a transferência.
Disse á
ele tratar-se de um engano e que minha pessoa não tinha pedido para ser
transferido para aquela divisão e que não iria trabalhar naquela função. Depois
de muita recusa fui obrigado a aceitar a
transferência, mas avisei á eles que iria reclamar no sindicato dos motoreiros.
Pois alem de não pedir para ser
transferido, estava sendo obrigado a aceitar uma coisa que na época era contra
a norma da empresa.
Quem
quisesse ser transferido dentro da empresa tinha que pedir por oficio escrito
pelo departamento de pessoal, ou no sindicato da classe portuária. Feito sem um
timbre oficial sequer era protocolado.
Recebendo
ordens de apresentar-me no dia seguinte, na subestação 7a, em Santos. Ao lado
da estação das barcas que fazem a atravessia no estuário de Santos. Eu fui
contra a minha vontade já que eu sabia que eles queriam obter de mim as
informações de como seria a rota de fuga para traficantes, contrabandistas e a
entrada de prostitutas em navios de cargas. Porque ali era uma área onde havia
vários cabarés, prostíbulos, tráficos de drogas e outras coisas mais. Eu
apresentei-me naquele local sobre protestos.
Já no
primeiro dia de minha apresentação, comecei a reclamar para os motoreiros
locais de que não gostava daquele tipo de serviços, que de tudo faria para
regressar ao meu antigo local de trabalho no terminal para fertilizantes.
Nos dias
que se seguiram eu era procurado diariamente por Zé minhoca para que mudasse a
minha opinião. E que de nada adiantaria eu lutar para deixar a função de
operador de guindaste ou a rede de informação.
Nos
exames médicos eu dizia aos médicos que me examinavam ser eu muito nervoso e
poderia talvez provocar algum acidente com os guindastes e causar a morte de
alguém.
Lembrei-me
então que eu tinha um tio (tio Zéca), que era um ex-diretor dos sindicatos dos
operários. Nesse dia tive uma grande idéia e que deu muito resultado. Fui até a
casa de meu tio, e contei a ele que tinha sido transferido para trabalhar como
motoreiro de guindaste sem ter pedido.
Imediatamente
meu tio foi até o sindicato, pediu a um outro diretor do sindicato dos
operários portuários para acompanhá-lo em sua empreitada. Meu tio Zeca retornou
até a sua casa, pegou um de meus primos,
(Zé Roberto), e ambos foram até o departamento de pessoal da Companhia docas de
Santos (hoje codesp).
Lá
chegando reclamaram porque tinham pessoas sendo transferidas para motoreiro sem
o próprio consentimento.
E que ele
tinha um filho (Zé Roberto), que tinha feito vários pedidos para trabalhar
naquela função e não tinha sido chamado, enquanto quem não pedia conseguia ser
transferido. O chefe do departamento de pessoal, senhor Coelho (homônimo de uns
de meu tio) disse ser mentira, e que aquilo não estava acontecendo.
Aí então,
meu tio Zeca apresentou-me como uma prova do que estava acontecendo. E que por
ele ser um ex-sindicalista o seu filho estava sendo renegado á aquela função
por causa dos militares.
Uma
semana depois eu voltei para o meu
antigo local de trabalho, como trabalhador de serviços diversos da divisão de
eletricidade no terminal para fertilizantes do cais, onde fiquei até ser
demitido por justa causa.
Já com
intenção formulada em minha cabeça para sair da RIC. Novamente eu mandei carta
ao engenheiro chefe do departamento de pessoal da codesp, Dr Luiz Eduardo de
Magalhães Gama, dizendo que não aceitaria
mais ficar dando informações sobre mais ninguém.
Eu sabia
que forçando a minha saída e o meu desligamento da RICC, não ficaria muito
barato. E para isso eu deveria ficar preparado para o que der e vier, poderia
inclusive ser demitido da empresa. E que de modo algum eu deveria acovardar-me
por isso. Eu tinha certezas quão covardes sãos as pessoas que se acham
detentores de falsos poderes. Eu estava
decidido partir para o outro lado da verdade, para mim seria ou tudo ou nada.
Sabia que
não seria fácil livrar-se dos agentes da RIC e principalmente da central alfa,
fazer o quê. A covardia da central alfa não demorou mostrar as suas sangrentas
garras. Começaram a dar em minha pessoa certos golpes baixos, muitos golpes
baixos.
Varias
vezes eu era chamado para responder sempre sobre as mesmas coisas e os mesmos
assuntos.
Ciente
disso, nos dias marcados eu comparecia e todas as perguntas que a mim eram
formuladas eu respondia desconhecer os fatos. Daí por diante iam vazando para outras partes de minhas chefias e para todo o pessoal da divisão a qual eu
trabalhava que minha pessoa era um informante do setor de pessoal da empresa.
Minha
vida começou virar um inferno na CDS. Sempre que chamado para comparecer e
relatar acontecimentos prontamente comparecia para botar mais lenha no fogo.
Tudo o que de irregular eu sabia denunciava tendo a certeza de que estava sendo monitorado pelos demais chefe
geral.
Aí
comecei a trabalhar como um agente
duplo, e na verdade eu já era uma outra pessoa, volta e meia nada sabia via ou ouvia.Quando
você está envolvido com algo licito do ilícito, as duas partes começam a
queimarem-se sozinhas.
Aproveitando-se
disso, como eu comecei a agir de forma convenientes a livrar a minha pele.
Quando
alguns de meus ex-companheiros eram punidos injustamente por minha chefia e
seus substitutos, eu dirigia-me até a central alfa e denunciava os erros da
minha chefia.
Os
funcionários de meu setor da divisão de eletricidade eram suspensos pelas
supostas infrações cometidas. Eu ia a socorros de meus companheiros de trabalho
e denunciava os meus chefes á central alfa pelos seus atos lesivos.
Da mesma
forma que meus companheiros eram punidos pela divisão elétrica, a minha chefia da mesma forma era punida pela
central alfa pelos atos ilícitos que
eles também cometiam.
Quando
minha pessoa era chamada para testemunhar contra qualquer um ato errado de
colegas de trabalho, eu desmentia as versões da chefia (se fosse verdade eu
confirmaria a versão da chefia) . Com o puro interesse de manter-se em seus
cargos, muitas mentiras eram versadas, por supostos chefes e seus chamados
cachimbos.
Resultado
disso era que para mim vinham muitas , punições dadas por chefes superiores da
divisão de eletricidade que ficavam muitos
irritados comigo devido ao fato de minha pessoa nunca estar ao lado dos erros
da chefia e desmenti-los.
Como
castigos, muitos companheiros acusados
eram punidos injustamente. Os chefes que os acusavam mentirosamente também
recebiam os seus troco. Isso não era retaliação eu nunca levantei um falso
testemunho o falava em vão. Através de minhas denuncias as pessoas do
departamento de pessoal confirmavam os
flagrantes e os erros cometidos pelos chefes.
Numa
certa ocasião eu quis botar um ponto final em minha situação dentro da Codesp
eu fui direto num fio da meada. Esse fio era um rapaz apelidado de Goiabão.
Quem era
goiabão? Ele era um apadrinhado do assessor do superintendente (inspetor Geral)
da Companhia docas do estado de São Paulo, o Doutor Berenguer.
Sabedor
de suas contravenções na empresa e que ele era um corruptor, porque comprava
bebidas contrabandeadas e presenteava o assessor do diretor da empresa
portuária.
Aproveitando
de uma ameaça de agressão feitas pelo cidadão goiabão, eu esperei uma chance
para gravar em fita cassete depoimentos de colegas de setor, os erros e as
infrações cometidas pelas chefias e principalmente pelo tal goiabão.
No dia em
que ele me ameaçou de agressão eu dei queixas dele na policia portuária e na
delegacia de policia de Vicente de Carvalho, de ameaça de agressão física.
Primeiro
apresentei as queixas no posto da policia portuária no terminal de
fertilizantes e depois chamei uma viatura da policia civil que foi buscá-lo
dentro do trabalho no terminal de fertilizantes, levando-o dentro da viatura da
policia para o distrito policial.
No dia
seguinte, lá pelas duas horas da tarde, resolvi ir falar com o superintendente
da Companhia Docas. Propositalmente eu fui até a superintendência da empresa,
com um macacão todo sujo de graxa. Fiz isso para não ser convidado a sentar-me
na cadeira da sala do diretor.
Quando
entrei na sala do doutor Berenguer, ele mandou-me ficar em frente de sua mesa,
mas em pé.
Perguntou-me
o motivo de minha presença no local. Disse- lhe que queria que a empresa
fizesse justiça comigo. Pois houvera sido ameaçado por um companheiro de
trabalho. Que ele era acostumado fazer isso com todo mundo e que não deixasse o seu assessor proteger o
senhor Álvaro (nome fictício) (o goiabão).
Que ele,
goiabão, era uma pessoa muito errada. Não respeitava as normas da empresa. E
que eu o tinha denunciado na delegacia de Vicente de Carvalho, e que pedira
para ser instaurado um inquérito no 70, (numero do prédio da policia portuária, e como era conhecida).
A
resposta do superintendente veio com uma outra pergunta,
___Senhor
João Carlos, quantos anos o senhor tem de empresa? O senhor tem esposa e
filhos?
___Sim!
Eu tenho esposa e quatro filhos, eu estou á quase dez anos na empresa!
___Muito
bem! Para o senhor manter a sua família
por muito mais tempo dentro da empresa e se beneficiando dela, me faça um favor
volte para o seu local de trabalho, e veja se cale a sua boquinha! Por favor
fique bem quietinho...
Eu fiz
meia volta e saí da sala do superintendente das docas, fui para a minha casa e
escrevi uma extensa carta relatando tudo o que acontecia de errado dentro da
empresa, e entreguei-a na policia federal em Santos.
Logo após
isso, fui até o supermercado pão de açúcar do Guarujá e comprei um pequeno
gravador cassete da marca Sanyo.
Aí então,
coloquei o gravador dentro de meu armário que ficava nos vestiários da oficina
do terminal para fertilizantes de conceiçãozinha. Fui chamando um a um dos
funcionários e ia gravando os seus depoimentos.
Por não
saber e nem desconfiarem que estavam sendo gravados, eles denunciavam todas as
irregularidades dentro do terminal. Todas as perguntas que eram discretamente
formuladas por mim, ia sendo respondidas sem nenhumas restrições.
Com o
depoimento de todos, inclusive da própria chefia eu reproduzi outras cópias
como garantia de um possível furto.
As
denuncias partiam desde contrabando, a furtos no cais e pessoas que montavam
veículos de terceiros dentro da própria empresa usando material retirados dos almoxarifados
da Codesp.
Denuncias
de fugas do local de trabalho, pedofilia, sabotagens de funcionários no porto
para prejudicar a empresa e daí por diante...
Eu tinha
nas mãos uns enormes trunfos para fazer uma verdadeira limpa das imundícies
existentes no setor, da divisão elétrica no cais do terminal para
fertilizantes de conceiçãozinha.
Sabia também que arranjaria muito inimigo no
setor, mas, pouco estava importando-me. Eu estava jogando para perder ou
ganhar. Eu nunca tinha cometido um deslize de gravidade. Sabia que minha ficha
pessoal estava sendo montada a caráter, pelo pessoal da RIC para me prejudicar.
Até antes de minha transferência para a
divisão de eletricidade, e minha consecutiva entrada para a rede de espionagem,
eu tinha uma ficha de informações pessoal chamada de fé de ofício,
completamente limpa.
Na minha
cabeça sempre tinha a imaginação de que é melhor antes morrer como um herói, do
que ficar como um covarde vivo.
Dentro da
codesp existia os corporativistas de balcão. Os amigos que sempre quando um
colega saia para bebericar e fazer as suas orgias, ele tinha que levar o
companheiro de setor. Essas pessoas tornavam-se perigosas, pois quando um
falava uma mentira, ou outro confirmava como verdadeira as palavras dos seus
comparsas.
No caso
de uma acusação contra um deles, o outro sempre iria a favor do amigo, mesmo
que ele estivesse errado. Por eles tornarem-se perigosos, foi que eu tive a
idéia de gravar as denuncias e principalmente desmascará-los.
Munido do gravador, primeiramente fui até a
delegacia de Vicente de Carvalho, aonde o delegado local ouviu todo o teor da
fita.
Depois
ele me aconselhou a procurar o SNI - SERVIÇO NACIONAL DE INFORMAÇÕES e entregar
uma cópia da fita.
O próprio
delegado de policia procurou em uma de suas agendas e telefonou da delegacia
para uma pessoa, e marcou um encontro
entre nós dois.
Fato que
se realizaria numa terça feira as 9:00 da manhã, na base aérea de Santos.
Na data
estipulada fui ao encontro marcado. Apresentei-me ao oficial de dia, e disse
que teria ido ao local para falar com o Capitão CHIARADIAS (nome verdadeiro).
O militar
telefonou de seu posto para o capitão e mandou-me aguardar. Dez minutos depois,
veio um carro (Ford azul marinho) buscar-me.
O carro
era dirigido por um cabo da base aérea de Santos que me levou até um prédio
todo surrado, onde ficava o setor de controle de vôo da aeronáutica. Depois ele
ficou mostrando-me alguns equipamentos que eu sequer tinha conhecimento ou
desconfiava do que se tratava.
Lá pelas
11:00 horas o Capitão CHIARADIAS dirigindo ele mesmo o carro, levou-me até o
prédio do comando da base aérea de Santos. Numa pequena e luxuosa sala da
aeronáutica, iluminada com luzes natural que entrava pelas janelas e portas
abertas. De um lado olhando pelas portas abertas você via o campo de pouso da
aeronáutica e os seus belos jardins com palmeiras jandaia. Visualizando pelas
janelas você via o canal da Bertioga e a serra do mar.
O Capitão
Chiaradias mandou-me que o aguardasse deixando-me á só sentado numa poltrona.
Uns dez minutos após ter saído ele retorna junto com um outro Oficial da
Aeronáutica (um senhor de cor negra), sequer eu olhei o nome do militar que
geralmente vem estampado na farda.
Sentaram-se lado á lado numa mesma mesa, e se começou a ouvir os detalhes gravados na
fita cassete.
Quando
chegava alguém o capitão desligava o gravador. Após ouvirem todo o teor da fita
o capitão CHIARADIA, aconselhou-me a procurar o oficial de dia do 2o. BC –
Batalhão de Caçadores de Santos e disse-me para pedir para falar com o
comandante daquela unidade e mostrar-lhe a fita cassete.
Ao invés
disso, eu escrevi uma carta pedindo para o delegado da policia federal de
Santos, e levei a fita para ele ouvir e ajudar-me, pois aí então eu já temia
pelo pior.
O
delegado da policia federal ouviu toda a fita e também me pediu para levá-la ao
2o. BC. Jamais eu levaria a fita para
ser ouvida no segundo batalhão de caçadores por muitos motivos. E o principal
motivo era que soldados, cabos e sargentos eram treinados nas varias secções da
companhia docas de Santos, para servirem como empregados e espiões dos
militares. O chefe do almoxarifado da companhia docas já era um capitão do
exercito, reformado!
Irritando-me
com tanto jogo de empurra, o que fiz: Comecei a cobrar da Divisão de policia
portuária uma posição quanto á instauração de um inquérito que fora pedido por
mim. Só aí então, eu peguei o gravador e comecei a mostrar o que estava gravado
nele para cada um dos companheiros do setor e pedi á eles que caso fosse
instaurado inquérito que apenas dissessem a verdade nada mais ou nada menos. Eu
não estava querendo forçar a barra contra eles, mais estava apenas querendo que
se instalasse a verdade e que cada um ficasse de olho no outro devido à
falsidade e a corrupção ali existente.
O
INQUERITO ADMINISTRATIVO INSTAURADO A MEU PEDIDO. NA POLICIA PORTUARIA, NÃO NO
DEPARTAMENTO DE PESSOAL COMO ERA DE COSTUME.
Quando
foi instaurado o inquérito administrativo á meu pedido na divisão de policia
portuária nós éramos ouvidos por um escrivão da policia portuária á sós em um
porão do prédio do setenta, ali não havia testemunhas nem para assinar aquilo
que depúnhamos. Assim preferi para
evitar que o inquérito fosse efetuado pelo setor de inquérito do departamento
de pessoal ou da chefia da engenharia da
divisão de eletricidade como era de costumes.
Foram
chamados a depor todas as pessoas lotadas na divisão de eletricidade do
terminal para fertilizantes do cais de conceiçãozinha. Paralelo a isso foi
aberto um outro inquérito no departamento da divisão de eletricidade da CDS ou
Codesp, pela chefia daquele setor.
Em ambos
os casos eu li todas as alegações de todos os depoentes. Que me elogiaram,
citaram o que realmente havia de errado na divisão de eletricidade no terminal.
Eu apenas
entreguei uma cópia da fita cassete para a policia portuária e não para a
central alfa como os seus membros esperavam. Mais tarde eu fui chamado pelo
Dro. LUIZ EDUARDO DE MAGALHAES GAMA, para que lhe concedesse uma cópia da fita.
Eu só não a entreguei como fui sarcástico dizendo não ter mais nenhuma cópia e
que se ele precisasse da cópia que
pedisse ao departamento da policia
portuária, (sei que ele não iria fazê-lo), pois na fita tinham graves denuncias
contra engenheiros, trabalhadores, chefes e outras autoridades da companhia
docas de Santos.
Na codesp
cada um dos vários departamentos tinha liberalidades e independências
diferentes. Cada um mandava em seus
departamentos. Ninguém se metia no departamento do outro. Por isso não lhe
entreguei uma cópia da fita, Se o fizesse ele iria mandar quase todo o pessoal
da elétrica no terminal para a rua. Inclusive ótimos profissionais, muitos bons
companheiros que tinham graves faltas
trabalhistas.
E como o
meu alvo principal era destruí a RIC, o trabalhador alcunhado de goiabão foi um
gatilho a ser apertado. Minha pessoa sabia que certamente eu seria mandado
embora (não por justa causa). E o outro litigioso, o goiabão,
jamais seria chefe na Codesp, por ter traído a confiança de todas as
chefias.
Enquanto
que se instalava o procedimento do inquérito administrativo. Eu fui à procura de
um deputado estadual o Doutor Joaquim Carlos Del Bosco do Amaral. Fui por
varias vezes em sem apartamento na avenida Washington Luiz no bairro do Gonzaga
em Santos. Esse deputado era muito procurado pelos portuários de Santos e por
professores das redes de ensinos.
Pensei
que ele iria ajudar-me, me reuni com ele por umas três ou quatro vezes em seu
apartamento que ficava ao lado de um clube social de nome Clube Quinze. Ele
ouviu toda a fita, mas no final de tudo eu percebi que ele estava tirando
proveitos politicamente de minhas denuncias. Volta e meia aparecia umas
noticias distorcidas no jornal a tribuna de Santos, com relação aos fatos
acontecidos no porto.
Revoltado
eu mandei á ele uma extensa e malcriada carta. Ele enviou uma carta resposta
para mim dizendo que estava decepcionado comigo e que eu não dava valor aos
seus longos e eméritos trabalhos como deputado federal. Graças a deus que a
carreira política desse ex-deputado tenha acabado pois tempos depois nem como
diretor de qualquer um clube de futebol de esquina ele ganhava eleições.
Tudo
estava acumulando em um emaranhado de demandas...
Outros
fatos importantes também se passavam. Quando minha pessoa cruzava na rua com o
tal DI BIASI, esse me ameaçava dizendo que eu estava querendo arranjar chifres
em cabeças de cavalos. Ou que qualquer dia, eu apareceria com a boca cheia de
formiga.
Na ultima
vez que ele disse-me isso, foi defronte o prédio dos correios e telégrafos de
Santos no centro da cidade. Eu comecei a xingá-lo e ele acabou saindo de
fininho. Quanto mais faziam para eu
calar a boca ou acovardar-me mais eu obtinha forças para lutar.
Por ter
uma forte personalidade e um forte caráter, jamais eu me curvaria a aqueles que
eu tinha como errados e verdadeiros bandidos. Pessoas que se achavam com um
poder que sequer tinham.
Por
incrível que pareça por ter medo de ser
assassinado e nada deixar para minha família, resolvi optar pelo FGTS. Com a
minha opção pelo FGTS, abri uma lacuna imensa para a minha demissão. Era isso que
estavam querendo o pessoal da central alfa.
Se no
caso eu não tivesse feito essa opção. Da mesma forma poderia até ser demitido
por justa causa. Mas nesses casos o sindicato interferiria pedindo outras
explicações. Às vezes até poderia o sindicato não fazê-lo, mais o ministério do
trabalho iria interferir de uma forma o de outra, pois aí existia a lei
trabalhista que no meu caso tinha sido ferida.
Quando
uma pessoa não optante era demitido por justa causa, ele não tinha como se
manter, pois não tinha a seu dispor o FGTS. Já o optante iria aos poucos e em
parte retirando as parcelas do FGTS. Nessa situação a dor do desemprego é bem
menor. Tinha uma outra faceta, Isso fazia com que o sindicato também não
interferisse no assunto trabalhador e empresa.
Fui
demitido em 26 de maio de 1976 quase dez anos de trabalho, por justa causa,
pela Companhia Docas do Estado de São Paulo, ex-companhia docas de Santos. Não
me abati com a minha demissão. Somente irritei-me ao saber que fora demitido
por justa causa.
Por esse
tipo de demissão eu nada receberia como indenização. Outro fato que me irritou,
foi que o diretor do sindicato dos operários portuários, com a qual eu tinha uma certa amizade, estava
traindo-me.
Quase
sempre eu estava no sindicato dos portuários para buscar correspondência de uma
pessoa amiga. Todas as correspondências dessa pessoa que morava na Venezuela,
vinham destinadas aquele endereço e em meu nome.
Alem
disso sempre que eu podia, eu e o diretor de nome Mattar, íamos á um bar na rua
General Câmara, defronte a esse mesmo
sindicato para tomarmos cafés e trocarmos idéias. Quem pagava as despesas, ora
era eu, ora era ele.
Depois de
demitido e quando percebi que não receberia nenhuma indenização, fui cobrar do
sindicato um apoio para a minha pessoa numa possível batalha contra a empresa.
O meu
amigo, o diretor do sindicato, o Mattar,
recusou-se me ajudar, dizendo que eu já estava fora mesmo, não adiantaria
reclamar. Mais tarde eu soube que o chefe do departamento de pessoal, o senhor
Coelho dissera a ele que eu era um alcagüete da companhia por isso o sindicato
evitava-me.
O mais
duro de tudo é que você sai de uma empresa e aqueles que você tem como
verdadeiro amigo ao encontrá-lo na rua te abraça te dá tapinhas nas costa te
convida para tomar um cafezinho e mais tarde descobre que você os perdeu
bestamente por uma simples bobagem ou por inexperiências da vida.
Quando
fui demitido pela Codesp, comecei a escrever cartas para o presidente Ernesto
Geisel. Enquanto isso eu entrei com uma questão trabalhista contra a codesp, no
ministério do trabalho.
Foram
chamadas varias testemunhas. A codesp levou pessoas de cargo de chefia, bem
antigas, com muito tempo de trabalho. Eu levei várias pessoas, todas
trabalhadoras, com bastantes anos de casa, mais de vinte anos cada uma.
Eram num
total entre as testemunhas de defesa e de acusação, seis pessoas ao todo. A CDS
levou dois advogados. Os meus advogados eram O Dr Abdalla Riscalla Ellias, e um
ex- juiz trabalhista aposentado.
Antes da
audiência, os advogados da codesp, queriam colocar palavras na boca das
testemunhas. Como nada conseguiram, fora feito um acordo e retirada a justa
causa que me impuseram .
Eu sabia
que os advogados da codesp nada conseguiriam contra mim pois eu era muito bem
quisto pelos demais companheiros. Eu sabia que teria seis testemunhas á meu
favor.
Por
estarmos sobre regimes militares na época,
sendo jovem e inexperiente. Em ninguém eu poderia acreditar. Eu tinha em
minha cabeça uma coisa, o presidente da
república, não tem partido político, não tem farda, tem um país. E por ele e
por seu povo deve lutar, sempre...
Eu já não
acreditava mais na policia civil, ou na policia federal, não acreditava mais em
outras pessoas á não ser acreditar no presidente da república e no secretario
de segurança publica do estado de São Paulo.
Resolvi
depois de tudo o que aconteceu e desse no que desse, procurar o presidente da
república e relataria os acontecimentos da companhia docas de Santos – CDS, ou
Codesp.
Antes de
mandar a minha primeira carta ao presidente da república, eu mandei uma carta
ao secretario de segurança publica do estado de São Paulo, na época, o coronel
Antonio Erasmo Dias, com as minhas denuncias.
Se o
secretário de segurança recebeu a carta eu não sei, pois resposta nenhuma eu
recebi. Mas para mim pouco importava se ele responderia a minha carta, o que eu
queria era deixar as autoridades cientes do que pudesse acontecer comigo ou
minha família.
Depois
disso achei mais seguro para mim e para a minha família procurar somente a
ajuda do governo federal. Primeiro eu comprei uma máquina de datilografia
portátil. Depois eu passei a escrever para a
presidência da república somente.
As minhas
primeiras cartas quando escrita e endereçadas a presidência da república, iam
destinadas ao palácio da Alvorada, que é a residência oficial do presidente,
mais o correto seria enviar ao palácio do planalto.
Mesmo
assim eu estava ciente que os resultados seriam outros. E que independentemente
de um governo ser militar ou não, eu sou um cidadão brasileiro e alguma
resposta eu sei que obteria.
Eu estava
tão certo de que o caminho a percorrer era aquele mesmo que dali por diante,
para todas as autoridades que eu escrevia, e mandava uma cópia da carta escrita
ao presidente da república, era dado por eles um tratamento muito especial.
Sempre eu
recebia uma resposta convincente, ou um tratamento mais respeitoso.
Num certo
dia quando eu estava morando na casa de minha mãe em São Vicente. Num dia á
tarde, vieram visitar-me dois grandalhões senhores, ambos com mais de cinqüenta
anos de idade. Pareciam serem descendentes de italianos pela firmeza e pelas
suas grossas vozes.
Ambos
estavam trajando ternos e gravatas. Disseram terem vindo a
mando da SUNAMAN, do governo federal, para saber sobre as minhas denuncias
contra a Codesp. O carro que os trouxeram foi um chevrolet de cor preta, chapa branca, dirigido por uma pessoa
que ficou dentro do próprio veículo.
Pedi a
minha mãe e as pessoas que estavam na casa para saírem e deixarem-nos á sós na
pequena sala da casa de minha mãe.
Por uma
triste coincidência no dia em que os visitantes chegaram na casa de minha mãe,
eu estava com a perna gessada.
Todos nós
três sentamo-nos nas poltronas da sala de visita e conversamos sobre um mesmo
assunto, a CODESP.
Eles a
apresentarem-se e disseram estar apenas
cumprindo ordens do governo Federal, da sunamam e da PORTOBRAS.
Disseram-me que nossas conversas seriam gravadas (eu não vi nenhum gravador com
eles).
Só
perguntaram-me coisas referentes a codesp, e se eu teria intenção em voltar
para trabalhar na empresa. Respondi que sim.
Conversaram
comigo por cerca de umas quatro horas. Eles deviam ter chegado na casa de minha
mãe lá pelas três horas da tarde e saíram ás
dezenove horas mais ou menos. Perguntaram-me se eu tinha uma cópia da
fita gravada, eu disse-lhes que no momento não, só tinha a fita original.
Disseram-me
que a original eles não queriam.
E que a
fita original teria que ficar comigo, pois ela seria a minha arma. Fizeram
apenas questão de ouvi-la, o que foi feito.
Ao saírem
eles desejaram-me boa sorte, que eu era um cara de muita coragem, e que nunca
desistisse de meu ideal. Saíram da casa de minha mãe da mesma forma que
chegaram, sem dar um sorriso sequer.
Minha mãe
tinha deixado uma garrafa com café, eu ofereci café a eles e não aceitaram
beber.
Outras
duas vezes eu fui chamado a depor na SUNAMAN, em Santos- Superintendência
Nacional da Marinha. As perguntas e as respostas eram sempre as mesmas.
UMA VIDA
TODA MARCADA PELO DESTINO
A vida
teria que continuar, eu teria que arranjar um novo emprego para sobreviver.
Sabia que meu nome estaria sujo na praça. Sabia também que em todas as empresas
em que eu fosse procurar emprego, para consegui-lo estaria à mercê das
informações da codesp.
A
primeira coisa que fiz foi retirar uma nova carteira profissional e que ela não
constasse nenhum emprego anterior. Agindo dessa eu forma estaria livre de ter
que apresentar uma carta da empresa anterior, como era a exigência na época.
Após ter
feito exames de escrita, e exame psicotécnico, eu consegui um emprego como
vigilante (líder) na área da Union Carbide em Cubatão. Dali por diante eu tinha descoberto a formula
de conseguir um emprego.
Sabia que
as coisas não seriam sempre assim. Que um dia
cedo ou tarde, eu teria que mostra a minha cara. Eu não correria o risco
de fica sem emprego em pequenas empresas mas quando tratasse de querer
trabalhar numa grande empresa a coisa mudaria de figura.
Não
demorou muito tempo para isso acontecer. Quando estava trabalhando com o
vigilante líder na área da Union Carbide, comecei a descobrir furtos e fraudes
provocado por caminhoneiros.
Os modus
operandis era o seguinte: O veiculo entrava para carregar. Era pesado
normalmente. Na volta, já carregado, o balanceiro verificava que havia excesso
de peso. O motorista do veiculo era mandado retornar para retirar o excesso de
peso.
Depois de
retornar para uma nova verificação, o veiculo era pesado definitivamente e a
nota fiscal emitida, sendo a seguir dispensado o veículo.
Com o
passar do tempo comecei perceber que um
veiculo que ia retirar 50 quilos de excesso de peso demorava de uma a duas
horas para regressar. Enquanto um outro veiculo que teria que retirar 100
quilos de excesso de peso, demorava apenas de vinte a trinta minutos para
efetuar a operação. E que na mesma forma era colocado o peso quando esse
faltava.
Perguntado
ao balanceiro como era retirado o excesso de peso, esse informou que e cada
saco era retirado 100 gramas mais ou menos. Estava pego o fio da meada. Comecei
a seguir os veículos que iam retirar excesso de peso, ou colocar o peso
faltante. E foi aí que flagrei motoristas ou seus ajudantes retirando das
caixas de ferramentas grandes pedras ou colocando as mesmas pedras na caixa de
ferramentas para fraudar a balança e não perder muito tempo dentro da empresa.
Depois
disso os flagrantes começaram a ser
avolumado. Para descobrir furtos em outras industrias a segurança industrial da
união carbide do Brasil informou as
seguranças de outras empresas.
Na
companhia siderúrgica paulista – cosipa. Motoristas foram detidos carregando
nas caixas de ferramentas dos veículos, lingotes de cobre ou estanho.
Devido a
minha performance no trabalho á Union Carbide ofereceu-me emprego na empresa.
Nela eu fiz um contrato temporário por três meses, que chegou a passar dos
noventa dias. Depois fiz um outro contrato temporário por mais quatro meses.
Esse outro contrato temporário foi
rejeitado por estar contrario a lei, e não poder haver esse tipo de
contrato novamente, aí se passaram oito meses..
Fiquei
como contratado da empresa temporária, por pouco tempo mais do que cinco meses.
Quando eu descobri que não teria sido contratado de forma definitiva e
diretamente pela Union Carbide, foi porque vazou a informação de que descobriram porque eu
teria trabalhado na Codesp e que lá eu era uma pessoa não grata. A UCB, Fora pedir informações de minha ficha pessoal
e a codesp informou para a Union Carbide
o pior possível sobre a minha pessoa. Devido a isso eu solicitei o encerramento
de meu contrato.
Por jogar
futebol eu sempre arranjava empregos em empresas temporárias. Em sua maioria
eram empresas honestas. Contra nenhuma dessas empresas temporárias eu poderia
reclamar. Todas foram honestas com a minha pessoa.
Com
empregos escassos, sofrendo terrorismo social de parte da Codesp, que informava
o pior contra mim eu teria que lutar de uma forma mais abrangente, só haveria
uma forma para isso....
A FONTE
DA MINA É BRASILIA...
Querendo
uma providencia mais concreta, ou ao menos que se acabasse as informações
negativas sobre a minha pessoa. de parte da codesp. Resolvi comprar uma pasta
007 e um terno e gravata, para depois
viajar para Brasília e tentar falar com os assessores ou diretamente com o
presidente da República.
Na
primeira vez que lá cheguei, eu fiz a maior miscelânea quase que me embananei
todo, eu fui de táxi direto ao palácio da alvorada. Parecia um bonequinho ou um
representante de vendas tentando vender material de construção. Na portaria do
palácio da alvorada eu fui informado por um sargento da aeronáutica para onde
deveria ir. Esperei vir um ônibus para pegá-lo pois naquela época em 1978 o
palácio da alvorada era cercado de água e matas por todos os lados e um
caminho, só um caminho como sua saída.
Chegando
no palácio do planalto eu fui recebido por um outro sargento da aeronáutica,
fardado! Que me explicou como entrar naquele palácio.
Como não
foi possível falar com o presidente a assessoria dele encaminhou-me para o
setor de atendimento ao publico. Na portaria solicitaram meus documentos,
colocaram em meu peito um enorme crachá escrito “ANEXO”.
Daí por
Diante eu percebi que existiam dois Brasil. Um Brasil onde todo mundo eram
tratado de formas iguais, (em Brasília), e um outro Brasil, aonde havia
diferenças em tudo até nos estados, nos municípios e nas autarquias.
Depois desses
acontecimentos eu prometi á mim mesmo,
sempre que tiver que resolver algo que tenha que pedir á ajuda de um Santo ou
procurar por um ”Deus”. Eu iria procurar esse “DEUS” lá em Brasília, pois
certamente o encontraria.
O
atendimento em Brasília, na forma direta ou indireta surte mais efeito. Fora de
Brasília se recebem ordens. Em Brasília se dão ordens. Fora se cumpre, dentro
se faz cumprir. Fora de Brasília somos atendidos por pessoas com a cara
emburrada. Dentro de Brasília, ao menos nos abrem um sorriso ou uma
esperança. Existem casos em que o
atendimento não é o esperado, mais os seus resultados sempre são na maioria dos
casos satisfatórios.
A
dificuldade para conseguir um emprego decente era tanta e tamanha que eu sempre
me sentia encurralado por muitas coisas. Somando-se a isso estava postada a
idade do cidadão. As empresas quando anunciavam vagas em seus quadros de
funcionários, explicitava a idade limite, 35 anos.
Tinha
contra mim a idade e um outro peso negativo, as informações concedidas pelo
departamento de pessoal da Codesp. Suas informações eram as mais negativas
possíveis, contra mim. Já me sentia um ex reeducando penal.
Outro
fato também pesava, as especialidades exigidas pelas empresas de Cubatão, e nem
sempre surgiam vagas de trabalhos disponíveis. Mais cedo ou mais tarde alguma
coisa de bom teria que acontecer comigo.
Certo dia
lendo uma página do jornal A tribuna de Santos, li sobre vagas para serviços
temporários. Por insistência de minha esposa, eu predispus-me a tentar essa
vaga, sem antes deixar de procurar emprego em outras empresas. No final da
tarde fui levar meu currículo numa agencia de emprego de Cubatão, vindo de
Santos.
A gerente
da empresa interessou-se por mim, e pediu-me para ir num outro dia de manhã,
numa empresa chamada ultrafertil em Cubatão., e foi o que fiz.
Quando
cheguei na empresa tinha eu e mais umas dez pessoas para somente duas ou três
vagas de empregados temporários.
Fui
entrevistado, por um funcionário da ultrafertil (supervisor), ex-sargento do
exercito (Osvaldo Blume), que foi bem sincero comigo disse que o emprego era
por apenas noventa dias, se eu aceitava, eu disse que sim e ele me mandou fazer
uns testes.
___Depois
de passar nos testes esse mesmo cidadão, o Blume, (que com o passar dos tempos
eu descobri ser uma das maiores
personalidades de caráter e humanidade), me diz eu já te avisei que o contrato
é por apenas noventa dias não foi?
___Sim! O
senhor me avisou e eu já sei disso!
___Pois
bem! Depois de vencer o contrato é uma ponta pé na bunda, tchau e abenção!
Eu fui
contratado como empregado temporário, por apenas noventa dias. No meu segundo
dia de trabalho, tinha um outro supervisor de trabalho, (Alcebíades), fui falar
com ele pessoalmente e pedir uma chance
para quando terminasse o meu contrato temporário e que a empresa
contratasse-me.
Ele
simplesmente respondeu-me brincando,
___A
empresa não irá mais contratar empregados
com balanceiros porque balanceiro é ladrão!
Puta que
o pariu! Você está fodido, vai pedir ajuda e um idiota que não mede as palavras
e que xinga ainda que indiretamente te chamando de ladrão na maior das caras
duras.
Aquelas
palavras magoaram-me tanto. Que quando fui almoçar e estava no restaurante da
empresa tomando um prato de sopa, comecei a chorar e minhas lágrimas caiam no
prato misturando-se a sopa.
Naquele
dia tomei uma forte decisão. No contrato de temporário em seu artigo oitavo
dizia ser de preferência ao atual contratado ao cargo e no caso de uma vaga, ao
empregado temporário que está naquela função.
Fiquei
imaginando comigo mesmo. Se a empresa não irá mais contratar pessoas que não
tem culpas por causa de uns possíveis ex-balanceiros que foram ladrões, á quem
eu deva recorrer para ajudar-me.
Descobri
que a empresa era pertencente a Petrobrás, portanto era uma estatal federal.
Mas quem era a pessoa certa para que eu devesse pedir a ajuda. Imaginei três
nomes possíveis. O primeiro seria o presidente da república. O segundo o
presidente da Petrobrás. O terceiro uma pessoa neutra e muito conceituada no
meio das autoridades.
Resolvi
escrever duas cartas. Uma para o presidente da república doutor Jose
Sarney, e a outra, para Dom
Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo. Não demorou trinta dias eu recebi duas
respostas, a primeira vindo de Dom Evaristo com bonitas palavras dizendo que
tinha mandado a minha carta para o presidente da ultrafertil, pedindo para que
esse me ajudasse. Mandou-me também uma foto do papa João Paulo, e uma foto de
Nossa senhora Aparecida.
A outra
carta vindo do ministro de minas e energia, o Doutor Aureliano Chaves aonde
dizia ter recebido uma carta do presidente Sarney com o meu pedido em questão e
que ele teria enviado o pedido ao
presidente da Petrobrás para ajudar-me. Vi que já era meio caminho andado.
Terminou
o meu contrato temporário, sai da empresa ultrafertil. Nessa mesma época
arranjei outro emprego como temporário para trabalhar na área da Cosipa em
Cubatão. Alguns dias depois fui chamado pela ultrafertil para fazer exames
médicos, mas não me falaram nada de que seria para trabalhar na empresa.
O tempo
foi se passando e eu continuei trabalhando na outra empresa como temporário.
Mas não sossegava e continuava a escrever para o presidente da república. Um
dia recebi um recado em casa para comparecer na ultrafertil.
Lá
chegando solicitaram-me que fosse fazer exames psicotécnicos, mas nada me
falaram de emprego. Antes de sair da área da empresa (estava aguardando o papel
para prestar exame).
Conversando
com um funcionário da ultrafertil (Nilo) e eu perguntei a ele quem era a pessoa
mais querida no setor, ele disse-me com firmeza (A SENHORA BERENICE).
Ao pegar
o papel dos exames eu pedi para falar com a senhora BERENICE, A SANTA BERENICE.
Fui atendida por ela e comecei contar toda a minha verdadeira historia não
escondi uma virgula sequer, todos os meus dramas, todos os meus problemas e as
minhas necessidades.
A tudo
ela me ouvia com a maior atenção. Depois
ela começou a mostrar as fotos do marido que também trabalhava na ultraferil.
Mostrou-me outra foto de sua família, e disse-me,
___Com
esse problema da Companhia Docas de Santos ou Codesp, você não conseguirá
trabalhar na ultrafertil!
Continuou
ela,
___A
ultrafertil tem uma pessoa especialmente para investigar a vida dos futuros
empregados, esse cara é um jogo duro, nem o irmão dele ele quis colocar na
Ultrafertil, só porque o irmão bebia. Mas não faz mal, eu tenho um grande amigo
que é o responsável por toda a triagem do pessoal da Petrobrás e da
ultrafertil. Ele é uma boníssima pessoa ele é um engenheiro chefe da segurança
interna da Petrobrás de Cubatão.
Ainda
Berenice,
___Você
só tem que conseguir uma coisa, uma carta como você tenha sido empregado da
CODESP, fale para que apenas diga que você foi um ex-empregado e mais nada.
Depois disso procure um advogado e solicite dele cópias do processo trabalhista
contra a codesp. Assim que você tiver isso em mãos, traga tudo para mim e não
comente nada a ninguém. Junto com uma carta tua que eu irei pessoalmente levar
as documentações do processo trabalhista para ele eu tenho a certeza ele irá te
ajudar. Mas por favor, escreva toda a
tua situação.
Assim foi
feito, procurei o doutor Abdalla Ellias, que me indicou um outro advogado amigo
seu, um juiz trabalhista aposentado. Que foi na junta de julgamento onde estava
o processo. Pegou toda a pasta do processo entregou-a em minhas mãos, e dali
fui para um cartório ao lado retirar xerox do processo, cerca de trinta cópias mais ou menos.
Tudo
pronto, eu entreguei os documentos junto com a minha carta nas mãos da SANTA
BERENICE, empregada da ultrafertil que tomou os rumos por ela traçados.
Quando
menos esperava fui chamado para comparecer urgentemente na sala de um dos
diretores de um dos departamentos da Ultrafertil. Cheguei no horário marcado,
ás oito horas da manhã para falar com o senhor SERGIO TADEU.
Apresentei-me
na portaria da empresa que me encaminharam para a recepção da empresa. Na
recepção, me deram um crachá de visitante e levaram-me até a pessoa indicada.
Quando
entrei na sala do diretor nela estava sentado ao lado da mesa um rapaz de uns
trinta anos e o senhor SERGIO TADEU.
Conversando
comigo, o senhor Sergio Tadeu me disse,
___Senhor
João Carlos, o senhor não é um, bom elemento não! O senhor é o maior vagabundo,
por isso o senhor não pára em nenhuma empresa.
Ainda o
diretor,
___Todas
as empresas que mandaram o senhor embora, me deu as informações que o senhor
sempre foi um péssimo empregado.
Olhei
para o rapaz estava ao lado, abaixei a cabeça, comecei a chorar, soluçando
comecei dizer a ele,
___Em
todas a empresas que trabalhei, eu nada tinha feito de errado. E que na Codesp,
eu apenas tinha sido feito de uma cobaia.
Continuei,
___Nas
outras empresas que contra mim erraram, assim como a codesp, eu as tinha
acionado na justiça do trabalho e ganho as causas contra todas elas. E mais
ainda, em outras empresas quando eu via
que não me serviam eu pedia a minha demissão para trabalhar em uma empresa melhor.
Continuo
falando,
___Da
mesma forma eu fiz pedindo ás autoridades uma chance para trabalhar na
Ultrafertil.
A seguir
o senhor SERGIO TADEU disse-me,
___A
única coisa que posso fazer por você é dar-lhe um outro contrato como
temporário, se você aceitar tudo bem
senão, nada posso fazer.
Não
pensei duas vezes para responder, eu disse que aceitaria. O senhor Sergio Tadeu
levantou-se da cadeira em que estava
sentado, veio até minha pessoa segurou em meu ombro, e disse-me,
___Você
escreveu para a pessoa certa. Eu nada poderia fazer por você á não ser o
presidente da Ultrafertil. Se você conseguir trabalhar definitivamente na
ultrafertil é por seus próprios merecimentos e pelo trabalho que você fez na
primeira vez em que trabalhaste como empregado temporário na empresa.
Abraçando-me
ele levou-me até a recepção e solicitou
para a recepcionista chamar um veiculo e levar-me até o departamento de pessoal
na fafer (uma outra fabrica do grupo) para preencher uma solicitação de emprego
temporário.
Encerrei
o contrato temporário que tinha como trabalhador na área da cosipa. E comecei a
trabalhar como empregado temporário na Ultrafertil, (Foi o meu segundo contrato
na empresa).
Quando
estava terminando os primeiros trinta dias do contrato, fui chamado no
departamento de pessoal. Solicitaram que minha pessoa fosse até a empresa de
prestação de serviços temporários, lá solicitasse o encerramento do contrato.
E que no
dia seguinte comparecesse na empresa ultrafertil, com fotos, carteira
profissional com baixa, e demais documentos.
A partir
de 25 de agosto de 1985, até 11 de setembro de 2004 eu trabalhei na
Ultrafertil, hoje fosfertil fertilizantes. Nunca faltei um dia ou sequer eu recebi uma advertência ou suspensão quer
seja por escrito ou verbal. Nela eu me aposentei por tempo de serviços.
A
ultrafertil s.a, uma empresa que jamais atrasou os salários de seus
funcionários. Uma empresa que paga em dia. Dá cobertura total aos seus
empregados. Uma empresa que trata de forma humanitária todos os seus
empregados. Uma empresa que dá total cobertura assistencial aos seus
funcionários.
A
ultrafertil S.A hoje Fosfertil, é, uma empresa que em tempos de Petrobrás, e
depois de privatizada, só cresceu e atualizou-se. Uma empresa que serve de
exemplo para qualquer empresa no mundo. Uma empresa que nada deve a ninguém em
atualização ou modernização.
A
ultrafertil S.A, a empresa que qualquer uma pessoa deve erguer ás mãos para
os céus e agradecer por estar
trabalhando, pois ela é uma empresa abençoada por “DEUS”.
Onde por
Fim me Aposentei aos 58 anos de idade!
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